Maxim olhava para Irina com desdém. Por que tinha que passar por esse sofrimento? Sinceramente, ele nunca aceitou ser o guardião dos espíritos.
Ultimamente, ele tentava passar o mínimo de tempo possível em casa para não ter que ver sua esposa, que transformara sua vida em um pesadelo.
Estiveram juntos por dez anos. Irina, que ele sempre considerou seu apoio e confidente, de repente decidiu mudar as regras do jogo.
Agora ela precisava de cuidados, ao invés de cuidar dele. Como se seu corpo tivesse falhado de alguma maneira.
A verdadeira razão para a doença era simples: *preguiça*! Ele trabalhava até tarde da noite, depois passava as camisas e preparava o jantar.
Se passasse muito tempo na frente do computador, isso era problema dele. Maxim sempre acreditou que suas finanças deveriam cobrir apenas as necessidades básicas.
Um ano atrás, tudo começou. Primeiramente, Irina simplesmente esquecia de fazer o jantar e se desculpava dizendo que estava cansada. Mas logo, esses casos começaram a se tornar mais frequentes.
Depois, ela começou a esquecer as tarefas domésticas: passar as roupas, manter a casa em ordem. Maxim aguentou, mas não conseguia mais suportar.
Finalmente, ele construiu sua carreira, e Irina sabia que sempre foi esse o seu objetivo. Concordaram que ele seria o responsável pelos rendimentos, já que ela não tinha grandes ambições profissionais.
Quando o copo transbordou, Maxim pegou Irina pelo braço e a arrastou para o médico.
“Agora vamos fazer um exame. Vamos ver se você realmente está saudável e deixar de fazer teatro” – disse ele em voz firme.
“E se não deveria fazer isso? E se for algo sério?” – perguntou Irina, com dúvida na voz.
“Não é sério, você não vai morrer. É só uma farsa” – respondeu Maxim, interrompendo-a.
Foi o único momento na vida dele em que se arrependeu de não ter prestado mais atenção. O médico informou que Irina tinha um tumor no cérebro.
Disse que a situação era muito grave e que, se não fosse operada, enfrentaria consequências trágicas.
Mas a cirurgia era complicada, o tumor estava em uma área delicada, e na clínica pública ninguém se arriscaria a operá-la. A única opção seria uma operação privada, que custaria muito.
“Sei que conseguirão fazer, mas não esperem milagres” – disse o médico. “O tumor cresce lentamente, mas sem parar. Quanto mais esperar, mais difícil será o tratamento.”
Irina olhou para Maxim, aterrorizada, enquanto ele caminhava nervosamente pela sala.
“Você sabe que não temos dinheiro suficiente” – murmurou ela. “E se pedirmos um empréstimo? Não é um valor tão alto…”
Nos olhos dela brilhou uma esperança.
“Empréstimo? Que adorável você sugerir isso” – respondeu Maxim com sarcasmo.
“E se a operação não funcionar? E se eu ficar endividada pelo resto da vida? Você realmente só pensa em si mesmo?”
“O que quer que eu faça? Esperar até ser tarde demais?” – perguntou Irina desesperada.
“Por que não? Não precisamos dessa operação” – respondeu Maxim com frieza.
Primeiro, ele a levou a outros médicos, que confirmaram o diagnóstico. Somente um médico de uma clínica duvidosa tinha uma opinião diferente. Maxim gostou do método daquele médico.
O estado de Irina piorava, o que deixava Maxim louco. Agora ele tinha que fazer não só a comida, mas também passar as camisas.
Se Irina, como hoje, tentava ajudar, tudo caía de suas mãos, só causando mais problemas.
“Irina, deita aí, eu cuido de tudo” – murmurou ele.
“Eu quero ajudar…” – disse ela baixinho.
“Ajudar, o que você pode fazer é desaparecer da minha vista” – respondeu ele severamente.
Maxim mal conseguia suportar o olhar faminto de sua esposa e sua aparência desleixada. Será que alguma vez ele quis uma mulher assim? Agora ele já tinha uma amante, Ludmila.
Ela era completamente diferente. Mas, como ainda estava casado com Irina, não podia fazer nada.
Seu chefe, que tinha princípios morais rígidos, nunca o perdoaria se abandonasse sua esposa doente. Sua carreira desabaria imediatamente.
Maxim terminou a refeição quando seu celular começou a vibrar no bolso.
“Sim, Alexander Ivanovich?” – disse com respeito.
Escutou por um bom tempo, e de repente pulou da cadeira.
“Claro, vou já. Entendo a importância disso. Sim, sei que nossa casa de campo é perto.”
Ele começou a arrumar rapidamente. O carro de seu chefe quebrou no caminho e Maxim precisou ajudá-lo.
Eles costumavam ir muito a essa casa quando o prédio ainda era forte e a área era pitoresca. Mas Maxim sempre achou entediante, e logo as visitas começaram a diminuir.
“Maxim, você é um milagre! Não tive tempo de ficar entediado e já está aqui. Que lugar maravilhoso!” – exclamou sua chefe com entusiasmo.
“Estou sempre disposto a ajudar” – sorriu Maxim, satisfeito consigo mesmo.
“E essa casa realmente fica perto daqui?” – perguntou Alexander Ivanovich, olhando ao redor.
“Sim, fica a apenas alguns quilômetros” – respondeu Maxim.
“Que sorte! Ter um lugar assim é uma verdadeira bênção.”
“Na verdade, quase nunca vamos lá. Talvez a vendamos” – acrescentou Maxim com indiferença.

Ele nunca pensou em vendê-la. Estava certo de que Irina nunca aceitaria isso. Mas algo lhe dizia que aquela seria uma boa oportunidade para conseguir dinheiro.
“Talvez devêssemos dar uma olhada lá. Quem sabe a gente feche um negócio” – sugeriu Alexander Ivanovich como se fosse uma sugestão casual.
Maxim sentiu uma onda de emoção. Claro, aquele dinheiro não iria para pagar a operação de Irina. Ele já tinha planos para gastá-lo.
Alexander Ivanovich admirou a casa e os arredores.
“Maxim, realmente não entendo como você não aprecia um lugar como esse. Tão perto da cidade. Com uma pequena reforma, poderíamos morar aqui o ano todo. Eu compro.”
“Sobre o preço, a gente conversa na nossa reunião. Mas sua esposa não vai se opor, né?”
“Não tem problema. Ela é uma mulher da cidade, não consegue imaginar morar aqui” – garantiu Maxim.
Depois da conversa, só restava uma coisa: convencer Irina a assinar os papéis.
Maxim pensou muito em como fazer isso, mas a solução surgiu sozinha. Naquela noite, ele entrou no quarto de sua esposa.
“Precisamos conversar.”
Irina, cansada, se sentou.
“Irina, não aguento mais te ver sofrer. Decidi pedir um empréstimo para a operação. Mas, para isso, precisamos de uma garantia. Pensei na casa de campo. Ela está vazia. Podemos usá-la como garantia.”
Os olhos dela brilharam de esperança.
“Maxim, obrigada! Mas… não posso ir sozinha ao cartório. Como vamos fazer?”
“Não se preocupe. Agora podemos fazer tudo online. Você vai assinar os papéis e eu cuido do resto” – disse Maxim generosamente.
“Claro” – aceitou Irina imediatamente.
Maxim não esperava que ela aceitasse tão rápido. Agora lamentava não ter pedido mais. Mas já era tarde – o assunto estava resolvido. Ludmila já estava com os planos prontos.
“Maxim, quando você vai estar livre?” – perguntou Ludmila impacientemente.
“Ludmila, precisamos esperar um pouco mais. O estado dela está piorando a cada dia. Precisamos encontrar uma maneira de acelerar as coisas” – respondeu ele pensativo.
“Não fale bobagens. Não quero me envolver em nada ilegal” – disse Ludmila indignada.
Maxim ficou desconfortável com essa conversa. Claro, Irina era um peso para ele, mas ele não queria cruzar limites. Ludmila o olhou furiosa.
O tempo passou, e a idade dele já não dava espaço para mais paciência. Era hora de agir.
Ludmila pegou o celular e enviou uma mensagem sem pensar nas consequências.
Irina lutava para pegar o celular. Quantos dias se passaram desde que alguém a contatou? Quando abriu a mensagem, ficou paralisada, depois uma lágrima amarga escorreu de seus olhos.
Claro, Maxim nunca poderia amar uma mulher como ela, doente e impotente.
Ela sabia o que tinha que fazer. Precisava desaparecer, sumir. Precisava fazer espaço para Maxim começar sua nova vida.
Ela esperaria o fim na casa de campo, onde ninguém a encontraria. Provavelmente, toda a história do empréstimo era só uma desculpa para ele se livrar de suas queixas constantes.
Com toda sua força, ela se levantou. Cada passo era um sofrimento. O mais importante era não perder a consciência pelo caminho. Ela precisava chegar até a casa de campo e lá terminar tudo, para libertar Maxim.
“Chegamos, senhora!” – gritou alegremente o motorista do táxi.
Irina abriu os olhos lentamente. Sim, ali estava sua casa, ou pelo menos a casa de seu avô. Mas por que havia luz na janela?
Talvez fosse um sinal: sua família tinha vindo atrás dela? Mal conseguiu chegar até a porta. Depois disso, não conseguiu dar mais um passo.
Seus olhos ficaram turvos e ela desmaiou, caindo no umbral da porta.
Maxim esperou pacientemente por duas semanas, perguntando-se se Irina voltaria. Mas a carta era clara: ela nunca voltaria.
Isso simplificou as coisas: agora ele podia entrar com o pedido de divórcio tranquilo. Todos no trabalho ficaram surpresos: Maxim sempre foi o modelo de pai de família.
Até Alexander Ivanovich perguntou o que havia acontecido.
“Nada demais” – respondeu Maxim com um sorriso sombrio. “Minha esposa me agradeceu por tudo o que fiz e deixou uma carta dizendo que ia embora e me odiava, e uma linha dizendo que era melhor eu não procurá-la.”
O chefe o olhou surpreso, mas não disse nada. Maxim sorriu por dentro: seu chefe era viúvo há anos e provavelmente já tinha esquecido como é ter uma família. Quem era ele para explicar a vida?
Os meses passaram rapidamente, e a promoção tão aguardada ainda não havia chegado. Logo viria o terceiro processo, após o qual poderiam se divorciar oficialmente.
Mas, de repente, Ludmila começou a se afastar. Disse que a carreira de Maxim estava estagnada e que ela não estava satisfeita com esse cenário.
Seus sonhos futuros eram completamente diferentes. Então Maxim decidiu conversar com seu chefe.
“Talvez devêssemos discutir alguns assuntos. Venha amanhã à minha casa de campo. Espero que você se lembre onde fica” – sugeriu Alexander Ivanovich de forma misteriosa.
Maxim aceitou a convite com prazer. Uma atmosfera mais amigável era exatamente o que ele precisava.
Claro, ele se lembrava onde ficava a casa de campo. Quando Ludmila soube que ele queria ir, ela também quis acompanhá-lo.
“Sua ex-esposa já desapareceu da sua vida. Por que você não se comporta como um homem solteiro?” – tentou convencê-lo Ludmila.
“Ludmila, venha comigo e eu te mostro o que está acontecendo lá” – disse Maxim, encerrando o assunto.
Quando o sol começou a se pôr, Maxim se imaginou com o que o aguardava, e com o que talvez nunca voltasse a acontecer.
Ele ainda tinha uma última chance…







