— Não vou cuidar dos filhos da sua irmã. Vou levar a minha filha e vou embora — disse o marido, sem ainda saber que segredo a sua irmã escondia.

HISTÓRIAS DE FAMÍLIA

Olya já reconhecia aquele som há muito tempo. O clique curto e agudo do interfone sempre trazia a mesma tensão para dentro do apartamento. Era sábado, dez horas da manhã.

Ela estava na cozinha, com um prato molhado nas mãos. Por um instante, parou quando o som tocou, e o prato quase escorregou dos seus dedos.

— Andrey, é ela? — perguntou baixinho.

O homem saiu da sala. O telefone ainda estava na mão, o olhar preso à tela, como se a realidade fosse apenas um ruído de fundo.

— Sim. Sveta. Só veio por pouco tempo. Disse que tem uma entrevista de emprego.

Olya colocou o prato no escorredor lentamente demais. “Por pouco tempo.” Aquela frase já não significava nada.

Já era a terceira vez naquela semana.

Na noite anterior, ela tinha ficado até quase meia-noite.

Secou as mãos e virou-se para ele.

— Andrey, você precisa entender uma coisa. Eu também tenho vida. Nossa filha, Dasha, precisa de mim.

— Eu entendo. Mas Polina e Vika são quietas, você sabe. Elas vão assistir desenhos com a Dasha. Não haverá problema.

Antes que Olya pudesse responder, a porta se abriu com força.

Sveta entrou como se trouxesse perfume e urgência ao mesmo tempo. Segurava duas meninas pelas mãos. Parecia mais pronta para um evento elegante do que para uma entrevista de emprego: vestido com decote profundo, cabelo impecável, batom forte.

— Meu herói de novo! — riu. — Meninas, vão brincar com a Dasha!

Polina pegou a mão da irmã sem dizer nada e foi para o quarto das crianças. Rápido demais. Natural demais.

Olya observou até desaparecerem no corredor.

Então se virou.

— Entrevista de emprego no sábado? — perguntou baixinho.

Sveta hesitou por um segundo, depois respondeu defensivamente:

— Sim. Empresas modernas não se importam com fim de semana. Estou atrasada, Andrijuska, preciso ir!

Ela mandou um beijo no ar e desapareceu.

Silêncio.

Olya foi até a janela, mas parou no meio do caminho. Não olhe. Não comece.

Andrey finalmente levantou os olhos.

— O quê?

— Você não percebe como ela está vestida?

— E qual o problema?

— Pessoas não vão a entrevistas assim.

Ele suspirou.

— Olya, por favor… não começa. Ela está numa situação difícil. Sozinha com duas crianças.

Olya estreitou o olhar.

— Foi o que ela te disse?

— Por que ela mentiria?

Essa pergunta fez Olya parar. Ela sabia de algo. Tinha visto uma foto no dia anterior: Sveta sorrindo em frente a um restaurante com outro homem, exatamente no horário da “entrevista”.

Mas engoliu as palavras.

— Só tenha cuidado, Andrey — disse ela.

No quarto das crianças, Polina construía uma torre de blocos com Dasha. Vika segurava um ursinho e observava em silêncio.

— Tia Olya, quando a mamãe volta? — perguntou Polina de repente.

A pergunta foi natural demais. E doeu.

— Em breve, querida. Ela prometeu.

Polina assentiu.

— Ela sempre promete.

A frase ficou no ar mais tempo do que deveria.

À noite, por volta das nove, Sveta voltou.

O perfume estava mais forte. Havia algo mais também — talvez álcool.

— Como estão meus anjinhos? — cantou.

— Vika chorou por duas horas — disse Olya calmamente.

— Ah, ela é sensível. Minha pequena.

Andrey ajudou as meninas a irem dormir, como se tudo estivesse normal.

Mas nada estava.

Mais tarde, Olya mostrou fotos no celular.

Sveta estava no restaurante com o mesmo homem.

Silêncio.

— Pode ser só reunião de trabalho — disse Andrey, inseguro.

— Abraçando ele? — respondeu Olya.

Mais fotos. Muitas.

O rosto dele mudou.

— Por que não mostrou isso antes?

— Porque eu queria que você visse sozinho.

Uma semana depois, Sveta anunciou:

— Treinamento em São Petersburgo! Dez dias!

— Que treinamento? — perguntou Andrey.

— Autodesenvolvimento! Evolução!

— As crianças ficam com vocês.

— Não — disse Olya imediatamente.

O rosto de Sveta endureceu.

— Você está destruindo minha vida!

— Não. Eu só não quero que as crianças sejam usadas.

Mas Sveta já não ouvia.

Bolsas, lágrimas, drama.

Andrey acabou cedendo.

— Dez dias. Última vez.

Três dias depois: fotos de Sochi. Praia. Sol. Sorrisos.

Mentira.

Olya decidiu ir embora.

Cinco dias depois, a campainha tocou.

Um homem estava na porta.

— Dmitry.

O pai das crianças.

Tudo começou a desmoronar.

Dmitry entrou e contou a verdade: Sveta mentia para todos. Ele era afastado das filhas. Dizia que não podia vê-las, mas era mentira.

Mensagens apareceram. Anos de provas.

E uma mensagem de Polina:

“Pai, venha me buscar.”

O silêncio se quebrou.

No dia seguinte, Dmitry foi buscar as meninas.

Polina correu:

— Pai!

Vika chorou, mas de alívio.

Andrey percebeu que tudo em que acreditava era falso.

No final, Olya disse:

— Você viu isso por seis meses e escolheu não ver.

Ela foi embora com Dasha.

A casa ficou vazia.

Mas a verdade finalmente apareceu.

E Andrey disse:

— A segurança das crianças vem primeiro.

Olya apenas respondeu:

— Finalmente.

E a tempestade que durou meses finalmente terminou.

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