Marina tinha cinquenta e dois anos. Desses, passara trinta como esposa de Igor, sem nunca sentir que esse tempo lhe tivesse pesado menos do que a ele.
Naquele dia também voltou para casa depois de terminar um relatório trimestral exaustivo. Passou rapidamente pelo supermercado, subiu as escadas carregando sacos pesados e foi diretamente para a cozinha, sem sequer ter tido tempo de trocar completamente de roupa.
Virou-se lentamente e viu Igor sentado à mesa, recostado na cadeira com toda a tranquilidade, de calças de fato de treino, remexendo o prato com evidente desagrado.
Do outro lado estava Anton, o filho de vinte e dois anos, de olhos fixos no telemóvel. Comia mecanicamente e apenas resmungava em concordância com o pai, como se tudo aquilo fosse a ordem natural das coisas.
— Parece que estamos a comer numa cantina, não achas? — perguntou Marina em voz baixa. No entanto, por trás das palavras escondia-se um cansaço duro e cortante. Durante um instante sentiu o peito apertar-se, e então algo se partiu definitivamente dentro dela, como uma mola esticada ao máximo. Não sentiu vontade de chorar nem de gritar. Apenas um esgotamento absoluto e cristalino.
Igor pousou o garfo e recostou-se ainda mais.
Explicou que era ele quem sustentava a família e que, por isso, merecia uma refeição digna, capaz de lhe devolver as forças depois de um dia de trabalho.
Acrescentou ainda que o emprego de escritório de Marina nem sequer podia ser considerado cansativo, já que ela apenas passava o dia sentada em frente ao computador a tratar de papéis.
Marina sorriu lentamente, mas era um sorriso frio e distante.
Vieram-lhe à memória todos os anos em que o mesmo homem tentava desempenhar o papel de «chefe de família» com um salário cada vez mais pequeno, enquanto ela fazia horas extraordinárias e mantinha a casa a funcionar praticamente sozinha.
Lembrou-se de como pagara os estudos do filho, de como carregava as compras para casa enquanto os outros descansavam.
Aproximou-se calmamente da mesa e, sem dizer uma única palavra, pegou primeiro no prato de Igor e depois no de Anton.
O rapaz levantou os olhos, surpreendido, mas permaneceu calado enquanto via a mãe despejar o conteúdo dos dois pratos no lixo.
— Ei! O que estás a fazer? — gritou Igor, levantando-se de um salto, já vermelho de indignação. — Eu quero jantar!
— A cantina fechou. — respondeu Marina serenamente.
Colocou os pratos no lava-loiça, lavou cuidadosamente as mãos, secou-as e pendurou a toalha exatamente no seu lugar.
— Se a comida que eu faço não vos serve, a partir de hoje cada um trata de si.
Virou-lhes as costas, saiu silenciosamente da cozinha e fechou a porta do quarto.
Na manhã seguinte, a casa estava mergulhada num silêncio estranho. Não era um silêncio tranquilo, mas pesado e desconfortável.
Até então Marina era sempre a primeira a levantar-se. Preparava café, fazia sandes e organizava os almoços para levar.
Dessa vez tomou banho sem pressa, vestiu-se, maquilhou-se ligeiramente e preparou apenas uma chávena de café para si.
Os dois homens apareceram na cozinha despenteados e confusos.
Não havia pequeno-almoço preparado.
Marina não disse uma palavra. Pegou na mala e saiu para o trabalho como se nada tivesse acontecido, embora, na realidade, tudo tivesse mudado.
Ao regressar a casa nessa noite, entrou numa loja gourmet.
Pela primeira vez em muitos anos deixou de pensar nas preferências da família e comprou apenas aquilo de que ela própria tinha vontade.
Levou peixe assado com legumes e uma pequena fatia de bolo, um luxo de que sempre abdicava para comprar mais coisas para os outros.
Em casa encontrou um ambiente pesado.
Igor estava sentado diante da televisão com expressão carrancuda, enquanto Anton vagueava pelo corredor.
Assim que a viu entrar perguntou imediatamente o que haveria para jantar.
Marina respondeu calmamente:
— Não tens mãos nem tempo para resolver isso sozinho?
Nesse momento Igor entrou na cozinha e declarou, irritado, que aquele comportamento era inadmissível e que cuidar da casa era obrigação da esposa.
Enquanto ele falava, Marina aquecia tranquilamente o seu jantar no micro-ondas.
Depois sentou-se e começou a comer como se a discussão nem lhe dissesse respeito.
Explicou que também trabalhava a tempo inteiro.
Ganhava tanto quanto Igor e, muitas vezes, até mais.
Por isso, não existia qualquer motivo lógico para cumprir um segundo turno de trabalho em casa.
Os dois homens ouviram-na em silêncio, como se ela estivesse a falar das regras de um mundo completamente desconhecido.
Nos dias seguintes instalou-se uma resistência silenciosa.
Marina cozinhava apenas para si.
Sentia-se mais tranquila.

Voltou a ler livros, passou a tomar banhos demorados e deixou finalmente de viver em função das necessidades dos outros.
Abandonou a maior parte das tarefas domésticas.
Lavava apenas a sua roupa, embora durante algum tempo ainda tratasse da roupa de Anton, avisando-o de que aquilo seria apenas temporário.
Entretanto, os homens sobreviviam à base de comida rápida.
A casa tornava-se cada vez mais caótica.
Ao fim de uma semana, o lava-loiça estava cheio de loiça suja.
Foi então que Igor declarou, irritado:
— Isto é trabalho de mulher. És tu que tens de tratar disto.
Marina nem sequer discutiu.
Limitou-se a perguntar onde estava escrito que aquela responsabilidade lhe pertencia exclusivamente.
A tensão aumentava de dia para dia.
O dinheiro começava a desaparecer rapidamente, encomendar refeições tornava-se demasiado caro e muitos produtos domésticos iam faltando.
Num sábado, Igor sentou-se finalmente diante dela e afirmou que, se ela não voltasse ao antigo comportamento, deixaria de lhe dar apoio financeiro.
Marina respondeu com absoluta serenidade.
Começou a enumerar detalhadamente a situação financeira da família.
Explicou que, há muito tempo, era o seu salário que suportava a maior parte das despesas: a casa, os estudos do filho e praticamente todos os custos do dia a dia.
Pela primeira vez, Igor percebeu o quão diferente era a realidade daquilo em que sempre acreditara.
Quando tentou argumentar que o apartamento lhe pertencia, Marina soltou uma pequena gargalhada.
Explicou-lhe calmamente que aquele imóvel era património comum do casal e que, perante a lei, seria dividido igualmente.
Foi nesse momento que a palavra «divórcio» foi pronunciada pela primeira vez com total seriedade.
O toque do telefone interrompeu a conversa.
Era Tamara Vassílievna, mãe de Igor.
Marina atendeu e explicou, com toda a calma, que os homens da casa não estavam a passar fome.
Estavam apenas a aprender a cuidar de si próprios.
Depois de desligar, anunciou que dali em diante todos participariam igualmente nas tarefas domésticas.
As primeiras semanas foram difíceis.
Houve discussões, tentativas desajeitadas e muitos erros.
Mas, pouco a pouco, tudo começou a mudar.
Anton aprendeu a cozinhar.
Igor, embora contrariado, acabou por se adaptar.
Numa noite, quando Marina regressou tarde do trabalho, um aroma delicioso enchia a casa.
Entrou na cozinha e encontrou Igor junto ao fogão, enquanto Anton o ajudava.
Os dois cozinhavam lado a lado.
Marina ficou parada à porta.
Pela primeira vez em muitos anos sentiu que não era apenas alguém que carregava todo o peso da casa.
Era simplesmente uma pessoa respeitada, num lar onde as responsabilidades deixavam finalmente de recair apenas sobre os seus ombros.







