„Não fica zangado comigo, mas o apartamento escapou-te das mãos“, disse o marido dela com um sorriso estranho, quase autossatisfeito.
Wera mostrou-lhe a língua de forma provocadora.
„Artjom, estás a falar a sério neste momento ou voltaste a ter mais um dos teus momentos particularmente criativos?“, perguntou ela calmamente, enquanto cortava uma maçã em pedaços finos.
Depois empurrou o prato na direção dele. „Serve-te. Com algo doce, o cérebro trabalha melhor, como se sabe.“
„Estou a tentar explicar-te de forma normal“, respondeu ele irritado e afastou o prato, como se as fatias de maçã o tivessem ofendido pessoalmente. „O apartamento de dois quartos da tua avó já não é da tua conta. O assunto está encerrado. O Denis praticamente já está a mudar-se.“
„Ah, o Denis“, disse Wera, acenando com tanta serenidade que Artjom ficou por um momento desorientado.
„Estás a falar do mesmo Denis que pediu dinheiro emprestado há um ano para umas férias de última hora e cuja situação financeira aparentemente continua igual até hoje?“
„Não distorças tudo.“
„Eu não distorço nada“, respondeu ela suavemente. „O rapaz não está a passar por uma fase difícil da vida, mas sim a ter um carácter difícil. Há uma pequena, mas importante diferença. Ah, desculpa, eu queria ser mais educada.“
A conversa ainda parecia quase inofensiva. Quase divertida.
Wera tinha aprendido ao longo dos anos a desarmar a agressividade dos outros com um sorriso. Quando os outros elevavam a voz, ela ficava normalmente mais calma.
„Artjom, vamos passo a passo“, disse ela, sentando-se à sua frente. Apoiou a cara na mão e observou-o atentamente.
„Chegas a casa, dizes-me que o apartamento da minha avó desapareceu de repente, e ainda por cima estás a sorrir como se tivesses ganho a lotaria. Explica-me essa lógica extraordinária.“
„Não há lógica nenhuma. A família decidiu que o Denis precisa de um sítio para morar, e o apartamento estava vazio.“
„A família decidiu“, repetiu Wera pensativa. „Interessante. Pelo visto esqueceram-se de me convidar para essa reunião de família. Provavelmente eu estava ocupada numa realidade paralela a lavar as tuas meias.“
„Tu fazes sempre piadas com tudo.“
„Claro“, respondeu ela calmamente, encolhendo os ombros. „Porque enquanto uma pessoa ainda consegue rir, ainda não perdeu tudo.“
„Um homem sábio disse uma vez que quem consegue rir de si próprio nunca fica sem motivos para estar bem disposto. Eu, no entanto, rio-me de ti, por isso o meu stock é praticamente ilimitado.“
Artjom franziu o rosto e bateu nervosamente com os dedos na mesa.
„Wera, não quero discutir. Aceita simplesmente como um facto. Os documentos estão a ser preparados e o Denis muda-se na próxima semana.“
„Que documentos, querido?“, perguntou ela com simpatia, inclinando ligeiramente a cabeça. „O apartamento legalmente é meu. Desde a primeira assinatura até ao último carimbo. Que decisão de família poderia mudar isso?“
Artjom hesitou.
„Bem… há certas particularidades.“
„Particularidades“, repetiu Wera sorrindo. „Particularidades são quando falta um pouco de sal na sopa. Quando alguém dispõe da propriedade de outra pessoa, isso chama-se mais fantasia.“
Depois, ela encontrou-se com a sua amiga Sonja num pequeno café na esquina.
Wera queria manter a cabeça fria e precisava de alguém que lhe dissesse honestamente a sua opinião, em vez de concordar apenas por educação.
„Ele disse mesmo que o apartamento tinha desaparecido?“, perguntou Sonja, incrédula, pousando a chávena. „Com aquele sorriso presunçoso dele?“
„Exatamente com esse.“
Wera mexia lentamente o café.
„E eu mostrei-lhe a língua.“
„Tu estás calma demais“, disse Sonja. „A mim isto tirava-me completamente do sério.“
„Por quê?“, perguntou Wera. „O pânico é um mau conselheiro. Quem treme acaba por concordar com tudo só para parar de tremer. Eu prefiro beber o meu café e pensar.“
„E a que conclusão chegaste?“
Wera sorriu de lado.
„Que o Artjom decidiu lidar com algo que não lhe pertence. Como um vigarista de jogos de copos. Ele move os copos de um lado para o outro, mas a bola está o tempo todo na minha bolsa.“
Nesse momento apareceu o irmão dela, Kostja.
De manhã, ela apenas lhe tinha enviado uma mensagem curta:
„Preciso de ti e da tua mente clara.“
„Então vamos lá“, disse ele enquanto se sentava e pedia um chá. „Quem está desta vez a tentar roubar a herança da avó? Deixa-me adivinhar: o Artjom e o primo dele com os problemas eternos.“
„Acertaste“, respondeu Wera.
„O Denis provavelmente já escolheu as cortinas.“
Kostja bufou.

„Sabes, a avó não passou o apartamento para o teu nome por acaso. Ela conseguia cheirar esse tipo de decisões familiares a quilómetros. Ela dizia sempre: as pessoas confundem bondade com fraqueza — até baterem contra uma parede.“
„É exatamente isso que vou fazer“, disse Wera, bebendo um gole de café. „Eu serei essa parede. Educada, simpática e incrivelmente estável.“
No dia seguinte, Wera foi até ao apartamento da avó para ver com os próprios olhos as supostas novidades.
À porta já estava o Denis.
Ao lado dele havia uma mala, e a sua expressão deixava claro que ele já considerava tudo resolvido.
„Olha só quem apareceu“, disse ele com um sorriso. „A própria proprietária. Escuta, Wera, não faças drama agora. Já está tudo resolvido. Eu realmente não tenho onde morar.“
„Denis“, respondeu ela calmamente, tirando as chaves, „não tens onde morar porque o dinheiro para ti tem a mesma estabilidade que água numa torneira aberta. Isso é lamentável. Mas não transforma o meu apartamento no teu.“
„Porque estás a fazer isto?“, gritou ele, aproximando-se. „O Artjom disse que estava tudo resolvido! A família decidiu!“
Wera começou a rir.
„Essa família decidiu. Sabes que mais? Já estou a colecionar essa frase. Em breve vou emoldurá-la na parede.“
„Estás cada vez mais insolente!“
„Não“, disse ela calmamente, abrindo a porta do apartamento. „Insolente é querer apropriar-se da propriedade de outra pessoa sem perguntar.“
Ela ficou à entrada e bloqueou-lhe o caminho.
„Deixa-me passar“, exigiu Denis. „Só quero trazer as minhas coisas.“
„Não te convidei.“
„Então trago-as mais tarde!“
„Não. Vais levá-las de volta. Mexer faz bem à saúde.“
Denis ficou vermelho de raiva.
Mas contra a calma dela não conseguia vencer.
„Ainda vais arrepender-te disto“, murmurou finalmente.
„O Artjom já me deu hoje de manhã um café horrível“, respondeu Wera secamente. „Mais danos do que isso ele não consegue causar.“
—
Quando chegou a casa à noite, restava pouco do sorriso confiante de Artjom.
„Tu expulsaste o Denis!“, começou ele logo. „Porque é que me envergonhas perante a minha família?“
„Eu não envergonho ninguém“, respondeu Wera calmamente enquanto pendurava o casaco. „Eu apenas protejo a minha propriedade. Isso é algo completamente diferente.“
„Quem pensas que és afinal?“, gritou ele, andando nervosamente pela cozinha. „O apartamento está vazio! Alguém precisa de ajuda e tu és egoísta!“
„Ajudar é dar a alguém uma cana de pesca“, disse ela, ligando o chaleira. „Mas dar a alguém um apartamento depois de já ter desperdiçado todas as oportunidades não é ajuda. Isso seria apenas um monumento à minha própria ingenuidade.“
„Agora estás a bancar a inteligente?“
Ela virou-se lentamente.
Pela primeira vez naquele dia, havia frieza na sua voz.
„Cuidado com as tuas palavras. Esta suposta mulher estúpida garantiu durante oito anos que nunca chegasses a casa sem comida quente. E tu, numa única noite, decidiste tirar-lhe a última lembrança da sua avó.“
„Lembrança?“, gritou Artjom. „Isso são só paredes e tijolos! A memória está na tua cabeça! Porque te agarras a uns metros quadrados?“
Wera acenou lentamente.
„Sim, eu agarro-me. Porque pessoas que chamam tijolos às memórias dos outros acabam mais tarde por chamar a própria esposa de objeto.“
—
Estavam a caminho da casa dos pais de Artjom para “discutir tudo com calma”. Pelo menos essa era a versão oficial. Na verdade, Artjom tinha insistido nesse encontro, e Wera acabou por concordar.
Não porque acreditasse que dali sairia algo bom, mas porque era do tipo de pessoas que prefere resolver as coisas até ao fim, em vez de as carregar durante meses como uma pedra pesada.
No carro, reinava um silêncio tenso. O motor zumbia monotonamente enquanto as luzes da rua passavam pelo para-brisas. Artjom segurava o volante com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos.
„Tens de perceber isto“, começou ele finalmente, nervoso. „Toda a gente espera que tu sejas razoável. Nós entramos, tu sorris, dizes que concordas com a história do apartamento, e depois tudo volta ao normal. Imediatamente. Sem discussão.“
Wera virou lentamente a cabeça para ele.
„Ou seja, esperam que eu represente um papel?“
„Não exageres.“
„Não, estou só a perguntar. O papel da esposa simpática e sorridente. Primeiro ato, primeira cena.“
Artjom suspirou irritado.
„Wera…“
„Não, vamos ser honestos“, interrompeu ela calmamente. „Tu nem sequer queres realmente ajudar o Denis. Esse não é o verdadeiro motivo. Tu queres provar à tua família que és o chefe da casa.
Que consegues dispor até de coisas que não te pertencem. Isto não tem nada a ver com família. É orgulho ferido.“
Artjom acelerou.
„Eu só quero ser respeitado!“
„Respeito não se exige nem se rouba aos outros.“
A voz dela manteve-se calma.
„Respeito conquista-se. Tu, pelo contrário, estás a tentar obtê-lo a crédito. Não funciona assim.“
„Tu não percebes nada!“
Ele abanou a cabeça com raiva.
„O Denis é a minha família, o meu sangue. E tu… tu és só alguém que apareceu depois. Se algo acontecer, tu vais embora. A família fica.“
Nesse momento, até o último vestígio de paciência de Wera desapareceu.
Ela olhou para ele durante muito tempo.
„Repete isso.“
A sua voz era baixa.
„Já percebeste.“
Ele lançou-lhe um olhar frio e curto.
„As mulheres vão e vêm. A família fica para sempre.“
Wera acenou lentamente.
„Obrigado.“
Não disse mais nada por um momento.
„Sabes, até é estranhamente honesto. Durante oito anos pensei que éramos uma equipa. Afinal, no teu mundo eu era apenas um apêndice qualquer.“







