— Está a organizar uma festa com o meu dinheiro? — disse o meu ex-marido, querendo exibir-se com a jovem esposa… até perceber quem estava ao meu lado.
— Que acolhedor aqui. Até parece… à maneira dos reformados — entrou Oleg no salão de festas com ar de quem me fazia um favor, e não de quem tinha vindo dar os parabéns.
De braço dado com ele estava uma rapariga de vestido bege justo. Cerca de trinta anos — da mesma idade da nossa filha mais velha.
A música parou subitamente.
Os convidados, que há pouco conversavam animadamente e tilintavam talheres, ficaram imóveis. Eu estava junto à mesa, apertando a haste do copo até os dedos ficarem brancos.
Não nos víamos há três anos. Desde o dia em que ele disse que “superou o nosso casamento” e partiu em busca de inspiração. Ao que parece, encontrou-a.
— Marina! — a sua voz cortou o silêncio. — Parabéns! Cinquenta e cinco — uma data significativa.
Ele aproximou-se, puxando a acompanhante consigo. Ela batia as longas pestanas e olhava com cautela para as minhas amigas, como se estivesse rodeada de peças de museu.
— Conhece a Alina — sorriu Oleg com autossatisfação. — A minha musa. Decidimos passar para dar os parabéns. Aposto que estás sozinha aqui, como antes…
Estendeu-me um saco com o logótipo de uma marca de cosmética cara. Mais uma indireta. Nem olhei para dentro — já estava óbvio que era “produtos para pele madura”.
— Obrigada, Oleg — disse calmamente, aceitando o saco. — Não era preciso. Aqui temos a nossa própria atmosfera.
— Vejo bem — percorreu o salão com o olhar, mesas e convidados. — Tudo tão… agradável. À maneira de reformados.
Alguém riu discretamente. A minha irmã Nadia preparava-se para responder, mas eu interrompi-a com um olhar: não agora.
— Desculpe, só um momento — disse, saindo.
Na casa de banho cheirava a citrinos. Fechei a porta e encostei a testa ao frio do espelho.
Do reflexo olhava para mim uma mulher de vestido azul-escuro. Cuidadosa, bonita. Mas os olhos… os olhos diziam tudo.
— Cinquenta e cinco… quem precisa de ti? — diziam. — Ele veio provar que ganhou, e tu és o passado.
Liguei a água fria e molhei os pulsos.
Lembrei-me de como Dima ontem riu enquanto me ajudava a escolher sapatos. Como olhava para mim — não como para a “esposa de sempre”, nem como para mãe, mas como para a mulher desejada.
— Basta — disse a mim própria.
— Não perdeste. És a Marina. E esta é a tua festa.
Ajustei a maquilhagem, endireitei a postura, respirei fundo e voltei ao salão.
O barulho enchia o espaço outra vez. De algum modo, Oleg tinha ocupado o lugar na cabeceira da mesa e, servindo-se de sumo, começou a falar alto:
— …digo-lhe: Alina, vamos para Bali! E ela: tenho medo de voar. Tive de levar business class, convencer. Juventude, sabem como é — vento na cabeça, mas energia!
Alina estava sentada ao lado, mergulhada no telemóvel — claramente entediada. As minhas amigas remexiam silenciosamente na salada.
— E a Marina? — ouviu-se a voz de Oleg.
— É caseira. Ela prefere cuidar de netos do que viajar pelo mundo. Cada idade tem o seu lugar.

Ele ergueu o copo:
— Pela juventude da alma! O mais importante é manter o motor a trabalhar; o passaporte é apenas papel. Embora os números já sejam… significativos.
Aproximei-me calmamente da mesa.
— Oleg, experimenta o pato. Hoje ficou especialmente bom.
— Vou provar — sorriu, olhando-me dos pés à cabeça.
— E tu, como estás? Sentes saudades? Gatos, séries?
— Sem tempo para saudades — sorri. — Trabalho, obras, vida.
— Obras? — riu-se. — Pendes o papel de parede sozinha? Ou contrataste alguém mais barato?
Nesse momento, a porta do restaurante abriu-se.
Na soleira estava Dmitri.
Blazer azul-escuro, gola da camisa desabotoada. Tudo no sítio. Tinha quarenta e cinco anos, mas parecia de forma que metade das mulheres na sala endireitou-se imediatamente.
Na mão — não um buquê. Um grande vaso com orquídea. “Pérola Negra”. Falei dela há seis meses… pensei que ele tivesse esquecido.
Dima encontrou-me com o olhar, sorriu — só para mim — e atravessou o salão com confiança.
Caiu o silêncio. Mas outro — vivo.
Ele aproximou-se.
— Desculpa o atraso — disse baixo. — Fui buscar a encomenda. Disseste que não se encontra por aqui. Mas encontrei.
Colocou a flor na mesa e abraçou-me pela cintura — calmo, seguro, com autoridade.
Beijou-me — não formalmente, mas de verdade. Curto, mas suficiente para me tirar o fôlego.
— Feliz aniversário, Marina. Hoje estás incrível.
Senti as bochechas corarem — e gostei disso.
Ao lado, Oleg engasgou-se — engoliu em seco. O olhar dele alternava entre mim e Dima. Alina finalmente se afastou do telemóvel.
— Este… quem é? — conseguiu dizer.
— É o Dmitri — respondi calmamente. — Arquiteto. Designer de paisagens. E o meu homem.
Dima estendeu a mão:
— Boa noite.
Oleg apertou-a sem convicção. O seu “triunfo” desmoronou-se. Ao meu lado estava um homem mais jovem, confiante… e, sobretudo, olhava para mim como Oleg não olhava há muitos anos.
— Arquiteto? — fez uma careta. — Cortas relvados?
— E construo casas — respondeu Dima calmamente. — E crio jardins. Para mulheres bonitas.
Oleg inclinou-se para mim, irritado:
— Jovem demais. Decidiste brincar à juventude? Manténs-no com o dinheiro que me ganhaste?
O salão ficou em silêncio.
Olhei para ele — calma. Sem raiva.
E de repente percebi: não me importa.
— Oleg — disse com firmeza. — Ao contrário de ti, não preciso comprar ninguém para me sentir feliz.
Pausa.
— O Dima e eu apenas nos amamos. E só eu me sustento. Com o meu próprio dinheiro.
Dima apertou a minha mão.
— É hora de irmos — disse Oleg abruptamente, levantando-se. — Alina, vamos.
— Mas ainda não comemos o bolo! — protestou ela.
Ele já a puxava para a saída. Rápido, nervoso. A sua entrada espectacular terminou em fuga.
Quando a porta se fechou atrás deles, Nadia bateu palmas primeiro. Seguiram-se os outros.
A música voltou a tocar.
— Vamos dançar? — perguntou Dima.
— Claro.
Saímos para o centro do salão. As mãos dele na minha cintura, a música à nossa volta, a orquídea na mesa — como símbolo.
Era uma vitória.
Não sobre o ex-marido.
Mas sobre o medo de ser eu própria.







