Vera se assustou quando Oleg falou em um tom ríspido. Cuidadosamente, ela guardava a roupa passada no armário, tentando não incomodar seu marido, que estava deitado no sofá diante da televisão.
— Oleg, eu faço de propósito para não bloquear a tela — disse ela com voz arrependida.
Embora ela não passasse diretamente em frente à televisão nem na frente de Oleg, ele ainda franziu a testa, visivelmente irritado.
— Qual a diferença? Tanto faz se você passa na frente ou ao lado, de qualquer jeito me incomoda! — resmungou Oleg, se ajeitando no sofá.
— Talvez seja hora de mudar algo, não? Estou cansada dessa vida. Por que não poderíamos sair para descansar em algum lugar?
Vera o olhou, alarmada:
— O que você quer dizer com «estou cansado»? Você não me cansou!
Oleg se levantou e começou a andar de um lado para o outro pelo pequeno apartamento.
— Você se interessa por mais alguma coisa além das tarefas domésticas?
Você sabia, por exemplo, que no mundo do entretenimento a última moda é as celebridades se afastarem de vez em quando para renovar suas emoções. Talvez devêssemos tentar.
Vera exclamou:
— Você está me dizendo que quer se divorciar?
Oleg pensou por um momento e depois balançou a cabeça.
— Não dramatize. Só estou dizendo que talvez devêssemos tirar um pequeno descanso.
Depois, se sentirmos falta um do outro, seremos como recém-casados outra vez. Eu não posso tirar férias, estou com muito trabalho. Mas você poderia ir a algum lugar.
Vera suspirou. Algo não estava certo.
— Eu também tenho trabalho. E para onde eu iria? Não tenho amigos e muito menos dinheiro. Acabamos de pagar o empréstimo do carro.
— De novo com o carro? — resmungou Oleg. — Não é minha culpa que as estradas sejam mal cuidadas.
Na verdade, a história era diferente. Seis meses antes, compraram um carro usado com o que haviam economizado. Em um dia de inverno, Oleg dirigia rapidamente por uma estrada escorregadia enquanto Vera o alertava.
— Oleg, tome cuidado! — não conseguiu ficar calada.
— Você duvida das minhas habilidades? — perguntou ele desafiador.
— Não duvido, mas olha a estrada.
Oleg riu e de repente girou o volante. O carro derrapou e colidiu com outro veículo estacionado. Oleg saiu rapidamente e a primeira coisa que fez foi culpar a esposa.
— O que você disse?! Foi tudo culpa sua!
Descobriu-se que não tinham seguro — um «especialista» em direção como ele não precisava disso. Precisaram pedir dinheiro emprestado para compensar o dono do carro danificado.
Vera sabia que Oleg nunca admitiria sua culpa. Ele sempre encontrava outro motivo: o clima, ela, o destino.
Agora, ela era a culpada: ele já estava cansado dela e seu casamento estava em um beco sem saída. Buscava uma aventura como as estrelas, embora não fizesse nada para mudar sua própria vida.
Aos 38 anos, Vera trabalhava em um escritório, viviam em um pequeno apartamento, mas ele culpava tudo na má sorte.
Vera esperava que Oleg esquecesse a ideia durante a noite.
Mas Oleg virou na cama, claramente sem dormir, não era apenas pelos minutos de sono perdidos diante da televisão. Ele tinha planos para salvar a família e começar um novo capítulo em suas vidas.
Nos dois dias seguintes, Oleg não disse nada, mas Vera percebeu que o plano ainda estava vivo. À noite, ele se sentava na cozinha lendo anúncios, sublinhando coisas, fazendo anotações.
No terceiro dia, Oleg já estava esperando na porta.
— Vera, já tenho tudo planejado! Está perfeito. Podemos descansar um pouco um do outro e até ganhar dinheiro.
Vera suspirou e se sentou.
— Me conte.
— Encontrei um trabalho excelente para você neste verão. Você estará ao ar livre, longe do barulho da cidade.
Vera largou a faca com a qual cortava o pão.
— Oleg, eu não quero ir.
— Então não se importa com nossa família? Com nosso relacionamento?
Vera suspirou novamente. Por que ela suspirava tanto ultimamente? Talvez Oleg tivesse razão. Talvez realmente não fosse má ideia tirar um pequeno descanso.

Ao ver que sua esposa estava cedendo, Oleg continuou com entusiasmo. Encontrou um homem que havia comprado uma casa em um vilarejo e agora queria começar uma fazenda.
Ele estava procurando ajuda, com alojamento e alimentação inclusos, e o salário era bom.
— E com o dinheiro que ganharmos neste verão, talvez possamos comprar um carro novo — acrescentou Oleg, entusiasmado.
Vera queria gritar porque teria que trabalhar para o novo capricho do marido, mas rapidamente engoliu a raiva. Já sabia como tudo terminaria.
Oleg apresentou seu «plano de verão» de maneira tão convincente que nem mencionou que o homem para quem ele queria enviar sua esposa tinha acabado de sair da prisão. Oleg manteve isso em segredo.
Quando Vera desceu do ônibus e pendurou a bolsa pesada no ombro, fez a mesma pergunta que não tinha encontrado resposta em muito tempo: quando aprenderia a dizer não? E, como sempre, não tinha resposta.
A casa era grande, embora um pouco antiga, mas ainda sólida. No pátio, havia materiais de construção espalhados, e o dono da casa estava desenhando algo em um pedaço de papel.
Ele usava sandálias, seu corpo era musculoso e bronzeado, e Vera corou ao vê-lo. Depois de tantos anos de casamento, ela já estava acostumada à figura magra de Oleg — braços finos, peito ligeiramente afundado, uma pequena barriga.
— Olá — disse Vera em voz baixa.
O homem levantou a cabeça e, embora seus cabelos grisalhos e as rugas no rosto evidenciassem o tempo que passara sob o sol, ele a observou atentamente.
— Olá. Você veio por causa do Oleg? — perguntou ele.
— Sim, Oleg me chamou. Está tudo bem?
Viktor se surpreendeu. O homem que o havia chamado lhe deu uma imagem completamente diferente de Vera: feia, inútil, nada interessante. E até lhe dissera que queria se livrar dela há algum tempo.
Viktor não esperava ser surpreendido tão agradavelmente: uma mulher bonita, bem cuidada, com longos cílios, cabelo trançado e arrumado, corpo atraente e uma figura grácil.
— Não acontece nada — respondeu Viktor depois de observá-la por um bom tempo. — Oleg me explicou o motivo de você estar aqui.
— Sim, ele me disse que eu deveria ajudar no jardim e no pátio.
— Exatamente. Venha, vou te mostrar seu quarto. Depois, comeremos e eu te falarei sobre as tarefas.
Vera recebeu um quarto separado, com entrada própria. Era simples, mas limpo e confortável.
Viktor a convidou a se acomodar enquanto ele começava a cozinhar. Alguns minutos depois, Vera saiu e pegou as facas e os pratos.
— Volte em dez minutos.
Dez minutos depois, Viktor parou surpreso na cozinha: sobre a mesa havia uma omelete, salada fresca, bacon cortado perfeitamente e aperitivos frios.
— Como você faz isso? Meus pedaços são sempre tão grandes que mal consigo mastigar! — perguntou enquanto levava um pedaço de bacon à boca.
— Às vezes também é necessário afiar as facas — sorriu Vera, mostrando a ponta.
— Você acha que isso é tudo? — perguntou Viktor, um pouco desconfiado.
— Experimente — riu Vera.
Viktor sorriu. A sinceridade e simplicidade de Vera realmente o surpreenderam.
Especialmente o fato de que ela não pediu o dinheiro extra que Oleg já havia retirado pelo primeiro mês de trabalho. Viktor decidiu manter isso em segredo.
Após o almoço, saíram para o pátio. Vera se surpreendeu ao ver que no pátio havia longas camas de morangos, arbustos jovens com frutas, colmeias e estufas.
— Você fez tudo isso? — perguntou surpresa.
— Claro, eu gosto de fazer. Não tudo manualmente, também tenho máquinas, irrigação automática, mas preciso de ajuda. Não gosto de tirar as ervas daninhas nem ficar ao lado do fogão.
Vera riu, e percebeu que naquele dia riu mais do que nos últimos meses. Se mergulhou feliz no trabalho.
À noite, a casa brilhava de tão limpa que estava, a roupa secava no varal e uma sopa aromática fervia no fogão. Viktor passou várias vezes por ali, depois sacudiu a cabeça e se foi.
Quando tudo estava pronto, Vera saiu para o pátio. Para sua surpresa, Viktor estava sentado no banco olhando para o horizonte.
— Viktor, o jantar já está pronto — ela disse.
Viktor se virou lentamente e, na sua voz, havia algo incomum.
— Sim, obrigado. Já vou.
Na mesa, Viktor tirou uma garrafa de vinho e encheu os copos.
— Vera, vamos conversar um momento: não há segredos entre nós. Oleg me disse que você deve saber toda a verdade. Passei oito anos na prisão. Depois de vender tudo, vim para esse vilarejo.
Vera o ouviu atentamente.
— Eu tinha uma família… uma esposa e uma filha. Costumávamos ir até o vilarejo vizinho. Ela cozinhava, nossa filha ajudava enquanto eu trabalhava no pátio. Uma noite, quando voltávamos…







