Konstantin e Albina se encontraram por acaso na Academia de Cultura, embora viessem de mundos completamente diferentes.
Konstantin, imerso na música desde a infância, nunca teve dúvidas sobre o que queria para sua vida.
Nascido em uma família de músicos – seu pai, violinista renomado, e sua mãe, pianista e professora em uma escola de música – seria um desastre para eles se ele não seguisse a carreira musical.
Felizmente, Konstantin possuía um talento inato que parecia ter sido transmitido através de gerações. A paixão por música que seus pais viviam era seu maior legado, e ele a carregava com orgulho.
Ele passava longas horas na escola de música onde sua mãe trabalhava, um prédio imponente que mais parecia um palácio, com colunas majestosas e escadarias que ecoavam o som de diversos instrumentos.
Konstantin optou pela guitarra desde cedo, praticando incansavelmente, sem jamais duvidar de seu caminho. Seu futuro era claro para ele, sempre.
Albina, por outro lado, cresceu em um ambiente bem distinto. Embora seus pais ainda estivessem vivos, ela se sentia uma órfã.
Sua mãe deixou o pai e foi para o norte, em Noyabrsk, deixando Albina aos cuidados de sua avó.
Prometeu voltar assim que sua vida se estabilizasse, mas, ao invés disso, construiu uma nova família, com mais dois filhos.
O pai de Albina, ausente e indiferente, nunca se importou com ela. Albina, então, aprendeu a confiar apenas em si mesma.
Vivia com sua avó, que recebia uma modesta pensão, e de vez em quando sua mãe enviava algum dinheiro, mas Albina sabia que não podia contar com isso.
Desde cedo, ela aprendeu a se virar sozinha, ganhando um extra cuidando de crianças ou passeando com cães. Mas o que realmente a encantava eram os livros.
Albina encontrou na leitura uma paixão imensa. Embora não pudesse comprar livros novos, sempre encontrava algum tesouro nas bibliotecas ou na internet.
Depois de terminar o ensino médio, ela decidiu estudar na Academia de Cultura, com o objetivo de se tornar bibliotecária.
Sua faculdade, predominantemente feminina, tinha muitas colegas que buscavam namorados em outras instituições. Mas Albina encontrou Konstantin justamente onde ela menos esperava.
Foi um encontro inesperado. Numa tarde, após uma aula, ela caminhava por um corredor vazio quando a melodia de uma guitarra a paralisou.
Era uma música tão encantadora que ela não resistiu e entrou no Audimax. Ali, viu um rapaz de cabelo escuro, concentrado em seu instrumento, criando um som envolvente.
Ela ficou ali, absorvendo a música, e, quando ele parou, aplaudiu com entusiasmo. Konstantin, com um sorriso brincalhão, fez uma reverência, como se já soubesse que ela o estava observando.
Logo, começaram a passar todas as horas livres juntos. Durante o verão, organizaram uma verdadeira expedição para coletar canções folclóricas em vilarejos vizinhos.

Albina anotava as letras, enquanto Konstantin gravava as melodias. Essas gravações se tornariam a base de seus trabalhos de conclusão de curso.
Quando terminaram os estudos, a avó de Albina faleceu, deixando-lhe um pequeno apartamento de dois quartos em um bairro respeitável.
O local era perfeito: todos os centros culturais estavam a poucos passos de distância. Albina já era parte da família de Konstantin, e seus pais ficaram muito felizes quando o casal decidiu se casar.
A noiva era modesta, trabalhadora e, acima de tudo, compartilhava com Konstantin tantos interesses que suas conversas nunca se esgotavam.
O casamento ocorreu no auge do verão, quando as noites eram curtas e as manhãs chegavam sem avisar.
O casal recém-casado e seus amigos celebraram o amanhecer em um barco no rio, brindando com champanhe ao novo capítulo que começava em suas vidas.
Nos primeiros meses, decidiram morar no apartamento de Albina e fazer apenas pequenas reformas. Criar o «ninho» se tornou uma verdadeira diversão.
E suas carreiras começaram a decolar rapidamente: Konstantin se tornou professor de uma escola de arte, e Albina encontrou seu lugar na biblioteca, um ambiente com o qual sempre sonhou.
Com o primeiro salário, eles foram às compras, empolgados com a ideia de decorar sua casa. Cada cortina nova, cada peça de café parecia uma conquista imensa, como se estivessem adquirindo tesouros.
Porém, após seis meses, as coisas começaram a mudar. Seus horários não se alinhavam mais: Albina passava a chegar tarde em casa, enquanto Konstantin voltava mais cedo.
No início, isso acontecia de forma esporádica, mas depois se tornou mais frequente. Eventualmente, ela começava a ficar fora até tarde da noite.
Uma manhã, quando Konstantin esqueceu umas anotações importantes em casa, ele voltou por volta das oito da manhã e encontrou o apartamento vazio, embora a biblioteca só fosse abrir mais tarde.
Konstantin sempre confiou em sua esposa, e suas explicações nunca pareciam gerar desconfiança.
«Você foi a algum lugar hoje? Fui até lá, mas não te encontrei», perguntou ele certa noite.
«Fui ao mercado», respondeu ela.
«Por que você chegou tão tarde ontem? Acho que ainda não perguntei isso.»
«Minha amiga estava doente. Ela tem um filho pequeno e eu precisei ajudá-la.»
«Karina? O que aconteceu com ela?»
«Ela tem sérios problemas de coração. Não vai melhorar.»
Aparentemente, Karina sempre precisava de ajuda. Às vezes, Albina ficava com o filho dela, em outras ocasiões, ajudava a organizar eventos, pois Karina estava fraca demais para fazer qualquer coisa.
As desculpas eram sempre diferentes. E Konstantin, que nunca havia sentido ciúmes, começou a perceber que já não era mais a prioridade na vida de sua esposa.
Alguns dias depois, quando ele estava saindo de casa, viu Karina correndo. Ela estava em forma, cheia de energia, e, ao vê-lo, acenou com um sorriso.
Konstantin, atônito, não conseguiu sequer cumprimentá-la.
Naquela noite, quando chegou em casa e Albina novamente não estava, ele pegou o telefone e ligou para Karina.
«Albina está com você? Se estiver, diga a ela que preciso dela», pediu, já desconfiado.
«De onde tirou essa ideia de que ela está comigo?» perguntou Karina, surpresa. «A gente nem se fala há um tempo.»
«Que estranho… E quanto ao seu coração? Você não precisa mais de ajuda?»
«Meu coração?» Karina parecia confusa por um momento, mas logo entendeu o que ele queria dizer.
«Ah, você está falando sobre o meu coração, Kosti. Está ótimo, completamente saudável. Mas e você? Acho que Albina te contou algo bem diferente, não?»







