— Você mora aqui? — Seus lábios finos se moveram quase imperceptivelmente, esboçando um sorriso desdenhoso.
— Sim, querida. O que te surpreende? — Respondi com um sorriso tranquilo, observando como os dedos delicados dela brincavam nervosamente com a alça de sua bolsa imitação de Prada.
Dizem que, após a morte de um marido, a vida para. Mas isso é mentira. A minha acelerou quando a conheci — a futura nora.
Anton estava tão feliz de nos apresentar naquele café aconchegante. “Mãe, essa é a Marina!” exclamou.
E logo percebi sua postura altiva, seus modos impecáveis… e aquele olhar frio em seus olhos, que, claro, passava despercebido para meu filho.
Petr me deixou uma fortuna suficiente para viver confortavelmente por várias gerações. No entanto, antes de falecer, ele me dizia sempre: “Luda, o dinheiro revela o verdadeiro caráter de uma pessoa.
Principalmente quando você não o tem.” Quando Anton sugeriu testar a noiva, não hesitei nem um momento.
Tudo foi planejado com cada detalhe em mente. “Me mudei” de minha mansão elegante no centro da cidade para um simples apartamento nos subúrbios.
Passei a fazer compras em lojas comuns. Anton mantinha a versão de que toda a fortuna foi usada para quitar as dívidas de seu pai. E o jogo começou.
— Marina, querida, quer chá? — Perguntei, retirando uma xícara desgastada de um móvel antigo.
— Ah, não, obrigada, estou de dieta, — respondeu, fazendo uma careta ao olhar o plástico gasto da toalha de mesa.
— Anton me disse que vocês moravam no centro. É difícil se acostumar com… este lugar?
Encolhi os ombros e escondi um sorriso:
— O mais importante é que tenho um teto sobre minha cabeça. E esse bairro não é tão ruim, se você se acostumar com o barulho dos trens.
Ela estremeceu dramaticamente:
— Meu Deus, eu não suportaria. Sabe, eu simplesmente preciso de um certo nível de conforto.
— Luda, você pirou?! — Katja quase se engasgou com seu café.
— Pra que tudo isso? Diga ao seu filho que ela só está atrás do dinheiro!
Estávamos no salão de beleza depois do trabalho. Katja sabia de tudo sobre minha situação; éramos amigas desde a escola.
— Não, Katja. Ele precisa ver com os próprios olhos. Ontem, por exemplo, quando disse: “Esse suéter é de segunda mão? Que… vintage!”
E isso com Anton presente. Quando ele saiu, ela ainda disse: “Espero que você não coloque algo assim no casamento.”
Katja balançou a cabeça:
— E Anton, o que diz?
— Anton? Ele está apaixonado por ela. Para ele, ela é um ideal.
— Um mês depois, tudo mudou. Marina apareceu inesperadamente em minha casa, supostamente para discutir o menu do casamento.
Sentou-se com uma expressão séria à mesa, olhando com desdém para o meu modesto apartamento.
— Sabe, — começou, olhando para suas unhas impecáveis, — sempre me pergunto… Como você conseguiu criar Anton nessas condições? Ele é tão… cult.
Fingi estar limpando o pó.
— Deve ter sido horrível viver na pobreza, — ela continuou com uma falsa compaixão. — Mas… cada um tem seu destino. Alguns nascem para o luxo, outros…
— Seus olhos passaram por cima dos meus móveis desgastados.
Naquele momento, percebi que Petr estava certo. O dinheiro realmente revela o caráter de uma pessoa. Especialmente a falta dele.
Olhei para a foto do meu marido na parede e, quase sem querer, pisquei para ele. O teatro seguia, mas o fim estava próximo.
Os preparativos para o casamento se tornaram uma maratona de gastos. Marina pulava de uma loja de vestidos para outra, escolhendo os mais caros.
Anton, coitado, só assentia e passava o cartão de crédito. E eu me mantinha em silêncio.
— Mãe, — me chamou uma noite, quando chegou com uma grande pasta cheia de folhetos de casamento, — fizemos as contas novamente para o casamento…
Eu estava costurando um botão no meu casaco antigo, com a intenção de que ficasse assim, velho, porque no meu armário havia roupas de marca.
— E daí? — Levantei os olhos, tentando esconder um sorriso.
— Então… — ele se sentou na beirada do sofá, suspirando dramaticamente. — Sabe, o casamento é o evento mais importante da vida! Anton e eu conversamos…
Talvez você possa pedir um empréstimo? Uns milhões?
Quase me engasguei com minha própria hipocrisia.
— Querido, — respondi calmamente, — receio que o banco não me empreste nada. Meus ganhos como bibliotecária…
Seu rosto se contorceu, como se tivesse comido algo azedo.
— Mas é o casamento do seu único filho! Você não pode ajudar um pouco? Você pode vender o apartamento!
Olhei para meus “pobres” apartamentos:
— E onde eu moraria depois?
— Bem… — hesitou, — você pode alugar um quarto. Ou… se mudar para o campo. É muito mais barato lá.
Essa noite eu não consegui dormir. Fiquei deitada, pensando em Petr, no nosso casamento simples, quando realmente éramos pobres, mas imensamente felizes.
Depois veio o primeiro grande contrato dele, o segundo… A riqueza cresceu, mas continuamos os mesmos.
De repente, meu telefone vibrou com uma mensagem de Katja:
“Dá uma olhada no perfil da sua ‘princesa’ nas redes sociais!”
Abri o perfil de Marina e vi sua transmissão ao vivo de um bar chique. Cercada de amigas, é claro, super animada, e seu comentário estava cheio de emoção.
“Imaginem! Consertando meias velhas! Em 2025!” — Marina revirou os olhos. “Mas não se preocupem, depois do casamento, tudo vai melhorar rápido.
Anton faz tudo certo, e a mãe dela fica em… como se chama mesmo?… no apartamento do bairro.”
Suas amigas riam.
“Você tem certeza de que ele não está escondendo nada de você?” — perguntou uma delas.
“O que ele poderia esconder?” — riu Marina. “As dívidas do pai dele engoliram toda a fortuna.
Mas Anton tem um bom trabalho, ótimas perspectivas… O importante é que ele é tão… fácil de manipular.” Ela baixou a voz, mas o microfone captou cada palavra.
Desliguei o telefone e, pela primeira vez, senti uma verdadeira dor. Não por mim, mas pelo meu filho.
— Mãe, você está meio estranha ultimamente, — disse Anton, quando veio me ver no dia seguinte. — Aconteceu algo?
Olhei para ele — tão bonito, tão bem-sucedido, mas de certa forma tão ingênuo — e não soube por onde começar a conversa.
— Está tudo bem, querido. Só estou um pouco cansada do trabalho.
— Talvez você devesse descansar.
— Anton, — o interrompi, — me diga a verdade: você é feliz?
Ele riu:
— Estou animado! Marina é incrível! Às vezes sinto que ela é demais para mim.
“Se soubesse o quão grave é a situação,” pensei, olhando pela janela.
— Aquela noite meu telefone tocou. Era Katja:
— Então, amiga, pronta para a despedida de solteira amanhã?
Suspirei fundo. Marina só me convidou por cortesia, esperando que eu recusasse.
— Sim, estou pronta. Sabe, comprei um vestido novo… de segunda mão.

Katja soltou uma gargalhada:
— Oh, ela vai desmaiar! Escuta, a gente não deveria terminar com esse jogo? Está na hora de contar a verdade para Anton!
— Não, Katja. Já é tarde. Amanhã despedida de solteira, daqui a uma semana casamento… Vamos deixar o curso seguir.
— Tem algo em mente?
Sorri e dei uma olhada na caixa forte atrás do quadro:
— Digamos que tenho um presente muito especial para ela.
— A despedida de solteira aconteceu no restaurante mais caro da cidade. Marina brilhava com um vestido de um famoso designer, e suas amigas desfilavam com roupas impecáveis.
E eu… apareci com meu “novo” vestido de segunda mão e meu broche favorito, a única coisa que “conservei da minha antiga vida”.
— Oh, mãe! — Marina fez uma careta surpresa quando me viu. — Você conseguiu vir! Pensávamos que você recusaria… Este lugar não é para qualquer um…
— No fim das contas, é o casamento do meu único filho, — respondi calmamente.
Suas amigas se entreolharam discretamente, quase não conseguindo segurar o riso.
— Meninas, — levantou a taça Marina, — quero brindar à minha futura sogra, que… sempre será um exemplo de como é importante estar contente com o que se tem.
Ela riu, e eu levantei minha taça tranquilamente:
— A você, querida. E pelas surpresas que a vida nos prepara.
Marina fez uma leve careta ao ouvir o meu tom, mas logo voltou ao seu jogo:
— Ah, por falar nisso, mãe, conversamos com o Anton… Depois do casamento, não seria mal você se mudar um pouco… mais para a natureza. A cidade, com sua idade, já não é o que você precisa.
“Mais para a natureza” significava, na verdade, “mais longe de nós.” Tomei um gole de champanhe:
— Não se preocupe, querida. Depois do casamento, tudo mudará. Eu te prometo.
— O dia do casamento amanheceu com um sol brilhante. Eu estava diante do espelho no meu “modesto” apartamento, olhando pela última vez para o quadro que construí ao longo dos anos:
um casaco desgastado, uma bolsa antiquada, bijuterias baratas. A ilusão chegava ao fim.
Meu telefone vibrava constantemente com mensagens. Marina se desbordava no chat da família:
“¡Mãe! Espero que não tenha intenção de usar aquele vestido horrível da despedida de solteira, né? Te transferi 15.000 para sua conta, compra algo decente. É meu casamento!”
Sorri. No porta-malas do meu “modesto” “Lada” (muito mais humilde do que minha verdadeira coleção de carros) havia uma bolsa com um vestido da Chanel e uma caixa com um anel de diamantes, exatamente o que Petr me deu.
“Põe isso nesse dia tão especial,” ele me disse na época.
— A cerimônia civil aconteceu em um complexo exclusivo no campo. A segurança na entrada me olhou com desconfiança, mas me deixaram passar, afinal, eu era a mãe do noivo.
— Deus, de novo com esse traje? — Marina correu em minha direção, seu penteado perfeito começando a desmoronar de tanto nervosismo. — Mude rápido! Tenho um vestido novo para você no provador.
— Não se preocupe, querida, — dei um tapinha no ombro dela. — Tenho uma surpresa para você. Mas antes precisamos conversar. Só nós duas.
Ela começou a revirar os olhos:
— Agora? Faltam apenas uma hora para o casamento!
— Exatamente por isso — agora.
— A levei para uma sala vazia e tranquei a porta. Marina estava visivelmente nervosa:
— O que é com essas pausas dramáticas? Vai borrar a maquiagem!
— Sente-se, — disse, tirando uma pasta com documentos. — Você sabe o que são esses papéis?
Ela balançou a cabeça, claramente irritada. Comecei a espalhar os papéis sobre a mesa:
— Este é o extrato da minha conta bancária. E aqui — os documentos da minha propriedade no centro. E aqui — os documentos da nossa casa no campo. E a lista das minhas ações e investimentos.







