Sentei-me ali, os ombros encolhidos, a cabeça baixa, sentindo o peso de uma tempestade de acusações e recriminações que vinha de ambos os lados. Valentina Alexandrovna, a mãe do meu noivo, parecia ter um dicionário inteiro de palavras para me culpar por todos os pecados possíveis.
E o que mais doía? Slava, o homem que eu acreditava ser o amor da minha vida, estava ao lado dela, balançando a cabeça como um daqueles cães de pelúcia no painel de carros, sem abrir a boca para me defender. Nenhuma palavra, nenhum gesto para interromper sua mãe.
Desde o primeiro semestre da faculdade, éramos chamados de “o casal perfeito”. Slava e eu éramos inseparáveis, nosso amor parecia inabalável. Nossa história começou muito antes, nos tempos de escola, quando meus pais e eu nos mudamos para o bairro dele.
Ainda consigo ver claramente a cena: os colegas de classe riam dos meus óculos enormes, e Slava, o garoto mais forte da turma, se colocou na minha frente como um herói e declarou em alto e bom som: “Quem mexer com a novata vai ter que se entender comigo!”
Depois disso, ninguém se atreveu a me incomodar. Slava passou a me acompanhar até em casa, nos tornamos amigos e, com o tempo, aquele vínculo de amizade floresceu em amor. Ele me protegia de tudo, e eu o ajudava com as tarefas da escola.
Éramos uma dupla perfeitamente sincronizada, completando um ao outro. Meus pais adoravam Slava. Ele era atlético, carismático e amava animais. A única “falha” dele? Não era exatamente um gênio nos estudos. Mas, para ser justa, ele mal tinha tempo para isso,
já que estava sempre ocupado com o esqui, representando a escola em competições. Eu, por outro lado, colecionava medalhas em olimpíadas escolares — física, história, literatura, você escolhe. “Somos olímpicos”, ele brincava, rindo.
“Cada um no seu pódio!” E o sorriso dele era tão sincero que era impossível não perdoá-lo por qualquer coisa. Se meus pais eram fãs de Slava, o mesmo não podia ser dito de Valentina Alexandrovna, sua mãe. Lembro-me bem do primeiro encontro.

“Slava, sério? Você está mesmo interessado nessa… mocinha sem graça?” ouvi sua voz cortante vindo da cozinha, enquanto eu esperava na sala de estar. “Claro que sim, mãe! A Zhenya é incrível. E, além disso, os óculos dão um charme único a ela”,
respondeu Slava com a convicção de alguém apaixonado. “Bom, você é quem sabe”, resmungou ela, insatisfeita. “Mas, francamente, há tantas garotas bonitas por aí, e você escolhe logo essa?” Essa era Valentina Alexandrovna: direta,
cruelmente honesta, e sempre com uma opinião que ninguém havia pedido. Os anos se passaram. Eu puxei Slava pela mão até o final da escola, ajudei-o a sobreviver à universidade e, no final, ficamos noivos. Era quase inevitável — todos nos viam como o casal ideal.
Mas então veio aquela noite no café «Luz das Estrelas», que virou tudo de cabeça para baixo. Valentina e Nikolai, o pai de Slava, me convidaram para uma conversa “importante”. O ar estava pesado, carregado de algo que eu não sabia nomear. Valentina exalava autossatisfação, enquanto Slava se contorcia na cadeira.
“Zhenya”, começou ele com um sorriso forçado. “Minha mãe comprou um apartamento para nós. E você vai pagar as prestações!” Pisquei, incrédula, tentando absorver aquelas palavras.
“Como é que é?” perguntei em um tom baixo, mas meu coração gritava de indignação.
Valentina não perdeu tempo e assumiu o controle da conversa. “É o justo. Meu filho é um presente, e você deveria agradecer por ele ter te escolhido. Vamos ser sinceras, você é inteligente, sim, mas não é nenhuma beldade. Ele poderia ter qualquer uma, entendeu?
Qualquer uma! Agora faça sua parte, venda o seu apartamento e acelere o processo.” As palavras dela cortavam como facas. E Slava? Continuava sentado, em silêncio. “Sinto muito”, murmurei, tirando o anel de noivado do dedo. “Mas não vou aceitar ser tratada assim.”
Levantei-me e fui embora. Lágrimas queimavam nos meus olhos, o coração parecia pesado como chumbo. Mas, naquele momento, eu tinha certeza de uma coisa: preferia a solidão a me sacrificar por alguém que nunca me amou de verdade.







