A intérprete, que trabalhava por apenas dez mil por dia, foi colocada na mesa mais distante do salão, como se não fosse mais do que uma simples empregada. Mas, quando o xeque ouviu o seu árabe impecável, chamou-a imediatamente para se sentar ao seu lado.

HISTÓRIAS INTERESSANTES

– A senhora é **Nadezhda Ilinichna**? A intérprete?

Artyom observou-a da soleira da porta, avaliando-a de cima a baixo. Nem sequer tentou esconder a sua desilusão.

A mulher vestia um simples fato cinzento. Usava óculos de armação fina e as pegas da sua mala já estavam gastas pelo tempo. Nada de chamativo. Nada de extravagante. Apenas uma dignidade tranquila.

— Sim. — estendeu a mão com educação. — Vim para o serviço de interpretação de hoje.

Artyom nem sequer olhou para a mão estendida.

Limitou-se a olhar para o relógio.

— Venha. Depressa. A delegação chega dentro de quarenta minutos.

O salão do hotel era deslumbrante. Toalhas brancas impecáveis, lustres de cristal e cortinas douradas. Ao centro, uma longa mesa estava preparada com placas de identificação e as bandeiras dos dois países.

Ali sentar-se-iam Piotr Andreievitch Likov, diretor da empresa, o xeque Abdullah, líder da delegação árabe, e a intérprete.

Só que essa intérprete não seria Nadezhda.

Sem dizer uma palavra, Artyom passou pela mesa principal, atravessou a zona reservada aos convidados e conduziu-a até ao canto mais distante da sala.

Mesmo ao lado da porta da cozinha.

— Aqui.

Apontou para uma única cadeira.

Entre o motorista e um coordenador de auscultadores.

Nadezhda ajeitou os óculos.

— Tem a certeza? Eu sou intérprete… não faço parte do pessoal de serviço.

— Tenho toda a certeza.

Nem levantou os olhos do telemóvel.

— Já temos uma intérprete. A senhora é apenas suplente. Se precisarmos de si, chamamo-la.

E foi-se embora.

Nadezhda sentou-se lentamente.

Da cozinha vinha o aroma de cebolas salteadas.

Ao seu lado, o motorista comia tranquilamente pequenos canapés de salmão, como se nada de importante estivesse a acontecer.

O coordenador falava sem parar sobre microfones e lugares marcados.

Nadezhda tirou da mala o seu velho livro.

Os poemas de Al-Mutanabbi.

As páginas amareladas acompanhavam-na há mais de quarenta anos.

Trabalhava como intérprete de árabe há vinte e cinco anos.

Começara a carreira quando falar árabe era uma raridade.

Vivera no Cairo.

Trabalhara em Riade.

Interpretara negociações ministeriais.

Participara em mais de duzentas reuniões internacionais.

E agora…

Estava sentada junto à cozinha por apenas dez mil rublos.

Porque há três semanas não tinha trabalho.

E as contas não esperam.

Algumas mesas mais à frente, Alina preparava-se.

Vinte e seis anos.

Vestido elegante.

Sorriso confiante.

Tablet na mão.

— Artyom… o que significa «musharaka»?

— Não é importante.

— Traduz como achares melhor.

Nadezhda fechou os olhos por um instante.

*Musharaka.*

Um dos conceitos fundamentais das finanças islâmicas.

Partilha dos lucros.

Partilha das perdas.

Qualquer estudante de árabe aprende isso no segundo ano.

Nesse momento teve um mau pressentimento.

Vinte minutos depois chegou o diretor.

Piotr Andreievitch.

Fato caro.

Botões de punho em ouro.

Perfume intenso.

Cumprimentou todos.

Sorriu para todos.

Exceto para Nadezhda.

Como se ela nem existisse.

À uma e quarenta e cinco chegaram três jipes pretos.

O salão mergulhou no silêncio.

O último a entrar foi o xeque Abdullah.

Não falou alto.

Não sorriu.

Mesmo assim, todos os olhares se voltaram para ele.

Artyom corria de um lado para o outro a endireitar as bandeiras.

— Alina!

— Sorri!

A jovem ocupou o lugar ao lado do xeque.

Nadezhda permaneceu onde estava.

Ao lado da cozinha.

Longe de todos.

Poucos minutos depois, Artyom aproximou-se dela.

— Leve água aos convidados.

Nadezhda levantou lentamente a cabeça.

— Sou intérprete.

— Não empregada de mesa.

— Neste momento está sem fazer nada.

— Os empregados estão ocupados.

— Ou acha que lhe pagamos dez mil rublos apenas para ficar sentada?

Algumas pessoas riram-se.

Não muito alto.

Mas o suficiente para magoar.

Sem dizer uma palavra, Nadezhda levantou-se.

Levou a água.

Serviu todos com mão firme.

Com a mesma serenidade com que, anos antes, interpretara negociações no Cairo enquanto se ouviam tiros ao longe.

Quando serviu o motorista do xeque, falou-lhe discretamente em árabe.

— Tenha um excelente dia. O tempo está surpreendentemente ameno para janeiro.

O homem ficou imóvel.

Ergueu lentamente a cabeça.

— A senhora… fala árabe clássico?

— Sim.

— Há quanto tempo?

— A vida inteira.

O olhar do motorista encheu-se de respeito.

Nem conseguiu responder.

Artyom apareceu imediatamente.

Agarrou Nadezhda pelo braço com brusquidão.

— Já chega.

— Volte para o seu lugar.

— Não fale com os convidados.

Ela libertou o braço calmamente.

— Falei na língua deles.

— Esse é o meu trabalho.

— O seu trabalho é ficar calada.

— E esperar.

Sem responder, Nadezhda voltou a sentar-se.

A reunião começou.

E, aos poucos, começou também a desmoronar-se.

Alina cometia erro atrás de erro.

Traduzia *musharaka* apenas como uma parceria comum.

Transformava uma promessa numa aceitação definitiva.

Convertia fórmulas de cortesia em afirmações falsas.

E um único «Inshallah» mal utilizado fazia parecer que a empresa nem acreditava que iria cumprir o prometido.

O rosto do xeque fechou-se lentamente.

O sorriso desapareceu.

O seu assessor deixou até de tomar notas.

Piotr apenas percebia que algo estava errado.

Mas não compreendia o quê.

Nadezhda ouviu todos os erros.

Começou a anotá-los num guardanapo de papel.

Artyom aproximou-se.

Arrancou-lho da mão.

Amarrotou-o.

— Eu disse para ficar calada.

— A Alina sabe o que está a fazer.

— A senhora é apenas suplente.

Nadezhda respirou fundo.

— Ela está a traduzir mal.

— Está a alterar completamente o sentido do contrato.

— O negócio de quarenta e sete milhões está em risco.

— Isso não lhe diz respeito.

Artyom virou-lhe as costas.

Nadezhda pegou noutro guardanapo.

E continuou a escrever.

Passou uma hora e meia.

A tensão era quase palpável.

Então o xeque Abdullah fez um longo discurso.

A meio, citou um antigo provérbio árabe.

Alina traduziu-o palavra por palavra.

A frase perdeu a alma.

O silêncio instalou-se na sala.

Um silêncio em que todos sentiram…

que alguma coisa se perdera para sempre.

Piotr empalideceu.

O assessor do xeque fechou lentamente os documentos.

O contrato estava praticamente morto.

Nadezhda fechou o livro.

Levantou-se.

Durante três horas permanecera em silêncio.

Suportara a humilhação.

Engolira os insultos.

Assistira ao desperdício de meses de trabalho por pura incompetência.

Mas já não conseguia continuar sentada.

Caminhou lentamente até à mesa principal.

Artyom foi atrás dela.

Tarde demais.

— Com licença.

A sua voz era suave.

Mesmo assim, toda a sala se voltou para ela.

Nadezhda olhou diretamente para o xeque.

E falou num árabe clássico impecável.

Não se limitou a traduzir.

Respondeu-lhe.

Citou Al-Mutanabbi.

Depois explicou com precisão o verdadeiro significado de *musharaka*.

Não traduziu palavras.

Transmitiu ideias.

Não traduziu apenas uma língua.

Transmitiu uma cultura.

O xeque ficou longos segundos a olhar para ela.

Depois, pela primeira vez naquele dia, sorriu.

— A senhora conhece Al-Mutanabbi.

— Ainda esta manhã o estava a ler.

— Ali.

Nadezhda apontou para a mesa junto à cozinha.

O xeque olhou nessa direção.

Viu a cadeira isolada.

Ao lado do motorista.

Mesmo em frente da porta da cozinha.

O sorriso desapareceu.

Disse algumas palavras em voz baixa ao seu assessor.

O homem levantou-se.

— O xeque Abdullah pede que o resto da reunião decorra exclusivamente através desta senhora.

A sala ficou petrificada.

Piotr olhou lentamente para Nadezhda.

— Senhora Nadezhda Ilinichna…

— Faça o favor de se sentar connosco.

Três horas antes obrigavam-na a servir água.

Agora todos se levantavam para lhe dar lugar.

Alina, de cabeça baixa, mudou-se para junto da parede.

Artyom ficou imóvel.

A reunião recomeçou.

E parecia que o ar da sala tinha mudado.

Nadezhda não interpretava.

Construía uma ponte entre dois mundos.

Compreendia as mensagens implícitas.

Transmitia todas as nuances do respeito.

Explicava aquilo que as palavras, por si só, nunca conseguiriam dizer.

Uma hora e meia depois, o xeque levantou-se.

Estendeu a mão a Piotr.

O contrato foi assinado.

Quarenta e sete milhões.

Graças ao conhecimento de uma única pessoa.

Antes de partir, Abdullah retirou um cartão de visita.

Entregou-o a Nadezhda.

— É uma profissional rara.

— Ligue-me na próxima semana.

— Precisamos de si.

Duas semanas depois recebeu um contrato internacional de seis meses.

O seu salário passou a ser doze vezes superior ao valor pelo qual a tinham deixado sentada ao lado da cozinha.

Piotr telefonou-lhe duas vezes.

Na primeira ofereceu dinheiro.

Na segunda pediu desculpa.

Disse que não sabia de nada.

Nadezhda ouviu-o até ao fim.

Sabia que era mentira.

Porque ele tinha passado por ela.

Tinha-a visto.

E não tinha parado.

Limitou-se a responder:

— Obrigada.

— Já aceitei trabalho noutro lugar.

Artyom nunca mais lhe telefonou.

Alina demitiu-se uma semana depois.

Na secretária de Nadezhda continua o velho livro de Al-Mutanabbi.

Abre-se sempre na mesma página.

Naquela que lhe recorda o dia em que todos lhe disseram para ficar calada.

E, mesmo assim, ela levantou-se.

Porque há momentos em que o silêncio deixa de ser humildade.

E passa a ser cumplicidade.

E, por vezes, a coragem de uma única pessoa vale mais do que a obediência de uma sala inteira.

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