«Decidiram o destino do meu apartamento nas minhas costas? Perfeito, Serguei… então a tua mala já está pronta, à tua espera, no hall de entrada!»

HISTÓRIAS DE FAMÍLIA

A bancada de mármore vibrou quando o smartphone começou a tocar. O nome que apareceu na tela fez Alina gelar imediatamente: **Lilia Stepanovna**.

A tia do marido quase nunca ligava. E, quando ligava, raramente trazia boas notícias.

Alina enxugou lentamente as mãos em um pano de prato e atendeu.

— Alina… antes de tudo, mantenha a calma. Estou na casa da Galina. Ela está na cozinha, e eu me tranquei no banheiro para conseguir ligar para você. Aconteceu uma coisa…

O coração de Alina apertou.

— O que aconteceu?

— Eles fizeram uma reunião de família. O assunto era a Jeanna. Você sabe que o companheiro dela perdeu tudo… o apartamento já não é deles. Ela voltou para a casa da mãe com o pequeno Vítia. Mas a Galina só tem um apartamento de dois quartos.

Então… decidiram que a Jeanna vai morar com vocês. No seu escritório. Disseram que você não precisa de um espaço tão grande, já que só trabalha no computador.

Além disso, o bairro de vocês é perfeito para uma criança. O Serguei também estava lá. Não disse nada… e depois concordou. Amanhã, enquanto você estiver trabalhando, a Jeanna vai levar as coisas dela. Assim “não haverá escândalo”. O Serguei deveria entregar a chave reserva para ela.

O silêncio tomou conta da casa.

Alina sentiu os dedos ficarem gelados.

A sua casa…

O seu apartamento…

E outras pessoas decidiram quem iria morar ali, sem sequer perguntar a ela.

— Obrigada por me avisar, Lilia Stepanovna.

Ela desligou.

Ficou imóvel por alguns segundos.

Depois olhou lentamente ao redor da cozinha.

Cada móvel, cada puxador, cada eletrodoméstico havia sido escolhido por ela.

Comprara aquele apartamento antes do casamento, com o dinheiro da venda de seu antigo estúdio e da herança deixada pela avó.

Quando Serguei entrou em sua vida, cinco anos antes, tinha apenas uma mala velha e algumas roupas.

Agora acreditava que podia distribuir os metros quadrados da casa como se fossem dele.

Sem lágrimas.

Sem gritos.

Abriu o guarda-roupa do quarto.

Pegou a grande mala cinza.

Colocou uma camisa.

Depois outra.

Um suéter.

Calças jeans.

Os produtos de higiene.

O barbeador.

O perfume favorito dele.

Dobrou tudo cuidadosamente, como sempre fizera durante o casamento.

Cada peça guardada era como mais uma linha encerrando cinco anos de vida em comum.

Quando fechou o zíper, o clique pareceu soar como uma sentença.

Em seguida, pegou o telefone.

— Mãe?

— O que aconteceu?

— Eles decidiram mudar a Jeanna para a minha casa sem me consultar. O Serguei concordou.

Do outro lado da linha ouviu-se uma risada seca.

— Parece que confundiram parentesco com registro de propriedade. Estou indo.

Quarenta minutos depois, a chave girou na fechadura.

Mas, antes que sua mãe chegasse, outra chave abriu a porta.

Serguei havia voltado.

Entrou na cozinha com o sorriso de sempre.

— Oi… Que dia…

Então parou de repente.

Duas xícaras.

Um silêncio estranho.

E uma expressão no rosto de Alina que ele nunca tinha visto.

— Como foi a reunião de família?

O sorriso desapareceu.

— Ah… então a Lilia contou…

Tentou sorrir novamente.

— Eu queria conversar com calma com você.

— Me preparar para quê? Para o fato de que outras pessoas decidiram quem vai morar no meu apartamento?

Ele respirou fundo.

— Alina… Você sabe da situação da Jeanna. Ela tem um filho. Não sobrou nada para ela. Somos uma família. Precisamos ajudar uns aos outros.

— Uma família conversa antes de tomar decisões. Não decide pelas costas do dono da casa.

Ele baixou os olhos.

— É só por um tempo. Seis meses… no máximo um ano. Você nem usa aquele quarto.

— Você prometeu entregar as chaves para ela?

Ele hesitou.

Depois respondeu baixinho:

— Sim…

Alina levantou-se.

Apontou para a mala ao lado da porta.

— As suas coisas já estão prontas.

Ele franziu a testa.

— O quê?

— Você vai morar na casa da sua mãe. Já que ela organiza onde toda a família deve morar, pode começar pela própria casa.

O rosto dele ficou vermelho.

— Você está falando sério? Vai expulsar o seu marido por causa disso?

— Não.

Ela o encarou diretamente.

— Estou mandando embora um homem que achou que podia decidir sobre a minha casa sem sequer me perguntar.

Serguei indignou-se.

— Eu também moro aqui! Também tenho direitos!

Nesse instante, a campainha tocou.

A mãe de Alina entrou.

Elegante.

Calma.

Com uma pasta grossa de documentos debaixo do braço.

Colocou os papéis sobre a mesa.

— Vamos começar pelos fatos.

Retirou a escritura do imóvel.

— Este apartamento pertence exclusivamente à minha filha. Foi comprado antes do casamento, com recursos exclusivamente dela. Nem um centavo veio de você.

Serguei cerrou os dentes.

— Mas eu estou registrado neste endereço!

A mãe de Alina retirou outro documento.

— Lembra do acordo de uso que você assinou quando se mudou para cá?

Ele empalideceu.

Ela ajustou os óculos.

— A cláusula cinco diz claramente que, se você tentar conceder o direito de uso do imóvel a terceiros sem autorização da proprietária, o acordo será rescindido imediatamente.

Empurrou uma notificação para a frente dele.

— Você prometeu entregar as chaves para sua irmã.

Ele ficou imóvel.

— Assine.

— Isso é ridículo!

— Assine.

Com a mão trêmula, ele pegou a caneta.

A assinatura atravessou quase toda a folha.

Então explodiu.

— Vocês são monstros! Não têm a menor compaixão! Minha mãe tinha razão! Você é incapaz de amar alguém!

Alina não respondeu.

Apenas abriu a porta.

— As chaves.

Furioso, ele as atirou sobre o aparador.

Pegou a mala.

E saiu.

Naquele exato momento, o telefone dele tocou.

O viva-voz estava ligado.

A voz triunfante de Galina ecoou pelo apartamento.

— Serguei! Eu disse para a Jeanna arrumar as caixas! Amanhã chegamos às dez! O pequeno Vítia está tão feliz por finalmente ter um quarto só dele! Você já contou para a Alina? Talvez ela faça um pouco de drama, mas depois aceita…

Alina pegou o telefone.

Sua voz permaneceu serena.

Estranhamente serena.

— Senhora Galina… Não se esqueça de preparar uma cama extra. O Serguei vai se mudar para a sua casa com todas as coisas dele.

Ela desligou.

Fechou a porta calmamente.

Girou a chave duas vezes.

Depois desligou o interfone, que já não parava de tocar.

Aproximou-se da janela.

A noite havia coberto a cidade.

Pela primeira vez em muito tempo, o silêncio já não era sufocante.

Lembrava liberdade.

E, naquela noite, Alina compreendeu que uma casa só se torna um verdadeiro lar quando ninguém além de você pode decidir como a sua vida deve ser vivida dentro dela.

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