Marina acreditou durante muito tempo que existem fases na vida em que simplesmente é preciso adaptar-se.
Pensava que o casamento nem sempre é fácil, que em todas as famílias existem pequenos conflitos e que, para preservar uma relação baseada no amor, por vezes é necessário fazer concessões.
Cinco anos antes, quando se casou com Dmitri, sentia que tinha escolhido um homem ao lado de quem estaria segura.
Não eram ricos, não tinham casa própria e a vida deles estava longe de ser perfeita. Ainda assim, Marina acreditava que objetivos comuns e respeito mútuo seriam suficientes para construírem uma vida feliz.
Mas a realidade revelou-se completamente diferente.
Ela vivia com Dmitri e com a sogra, Alla Petrovna, num apartamento de três quartos que pertencia oficialmente à idosa. No início, Marina encarava a situação como algo temporário.
Acreditava que, em poucos anos, conseguiriam juntar dinheiro suficiente, pagar as dívidas e comprar finalmente uma casa onde ninguém lhes dissesse como deveriam viver.
Contudo, à medida que os meses e depois os anos passavam, começou a sentir que não vivia num verdadeiro lar, mas num espaço governado pelas regras de outra pessoa, onde até para sentir as próprias emoções parecia precisar de autorização.
Trabalhava a partir de casa num centro de apoio ao cliente. À primeira vista, o trabalho podia parecer simples, mas Marina sabia muito bem quanta paciência, atenção e resistência ele exigia.
Passava os dias inteiros a falar com clientes, resolver problemas, ouvir reclamações e responder com gentileza, mesmo quando já estava completamente esgotada.
Mesmo assim, aos olhos de Alla Petrovna, aquilo nunca foi um trabalho de verdade.
A sogra repetia frequentemente que Marina «ficava apenas sentada em frente ao computador», enquanto o filho era quem realmente trabalhava e sustentava a casa.
Pouco lhe importava que Marina contribuísse todos os meses para as despesas, comprasse alimentos, pagasse contas e até ajudasse financeiramente Alla Petrovna sempre que surgia alguma despesa inesperada antes de receber a reforma.
A idosa via apenas aquilo que queria ver.
O mais estranho para Marina era a facilidade com que Alla Petrovna conseguia destruir os pequenos prazeres da sua vida.
Ela não sonhava com roupas caras, joias ou viagens de luxo.
Às vezes, bastava-lhe ter algo que fosse apenas seu.
Esse «algo» era um simples batom vermelho.
Não custara muito. Comprara-o numa pequena loja, uma semana antes, quando regressava do trabalho. Tinha custado apenas duzentos rublos, mas, para ela, era como recuperar uma pequena parte de si mesma.
Todas as manhãs, antes de ligar o computador e começar a atender chamadas, pintava cuidadosamente os lábios.
Era o seu pequeno ritual.
Durante aqueles poucos minutos em frente ao espelho, deixava de ser a funcionária cansada, a nora ou a esposa que precisava de corresponder às expectativas dos outros.
Era apenas Marina — uma mulher que ainda queria sentir-se bonita e confiante.
Mas Alla Petrovna detestava aquele batom.
Logo na primeira vez que o viu, franziu a testa.
— O que é isso? — perguntou num tom de desprezo, enquanto Marina servia chá na cozinha. — Uma mulher decente não anda assim dentro de casa.
Marina sorriu, convencida de que era apenas um comentário infeliz.
— É só um batom — respondeu calmamente.
Mas Alla Petrovna não desistiu.

— Uma mulher respeitável não precisa de chamar tanta atenção — disse, observando-a de cima a baixo. — O que estás a tentar provar?
Marina preferiu não responder.
Aprendera que havia discussões em que qualquer explicação seria inútil. A sogra não falava para compreender, mas para se sentir superior.
E Dmitri permanecia sempre em silêncio.
Era isso que mais magoava Marina.
Ela não esperava que o marido discutisse com a mãe nem que a humilhasse.
Queria apenas ouvi-lo dizer uma única frase:
— Mãe, isso é uma escolha da Marina. Deixa-a em paz.
Mas Dmitri escolhia sempre o caminho mais fácil.
Baixava a cabeça, olhava para o telemóvel ou fingia que nada estava a acontecer.
Como se o silêncio fosse uma forma de neutralidade.
Só que, para Marina, aquele silêncio nunca foi neutralidade.
Era uma forma de tomar partido.
Numa noite, quando Dmitri saiu para trabalhar, Marina ficou sozinha em casa com Alla Petrovna.
Depois do jantar, lavava a loiça quando percebeu que a sogra a observava havia vários minutos.
— Sabes quanto custou essa tinta que tens nos lábios? — perguntou finalmente.
Marina suspirou.
— Duzentos rublos.
— Duzentos rublos? — repetiu Alla Petrovna com ironia. — Com esse dinheiro comprava-se carne de verdade, em vez dessas porcarias que vocês, jovens, comem.
— Comprei-o com o meu próprio dinheiro — respondeu Marina.
Nesse instante, Alla Petrovna sorriu.
Não era um sorriso simpático.
Era o sorriso de alguém que acabara de encontrar a próxima frase capaz de magoar.
— Com o teu dinheiro? E quem paga para ficares sentada o dia inteiro em frente ao computador? O meu filho. É ele quem sustenta esta casa.
A esponja parou nas mãos de Marina.
Por um momento, teve a sensação de já ter ouvido aquelas palavras centenas de vezes, apenas com formas diferentes.
Nada do que fazia parecia ter valor.
O seu trabalho nunca era suficiente.
A sua ajuda nunca era suficiente.
A sua paciência nunca era suficiente.
Tudo parecia sempre insuficiente.
Apesar de trabalhar, de se cansar e de lutar diariamente para manter aquela vida, ninguém parecia disposto a reconhecer isso.
Alguns dias depois aconteceu algo que mudou tudo dentro dela.
Marina raramente precisava de ir ao escritório, pois quase todo o trabalho era feito a partir de casa.
Naquele dia, porém, teve de comparecer pessoalmente.
Passou horas em deslocações, reuniões e conversas.
Quando regressou ao apartamento, sentia-se completamente sem forças.
Assim que entrou, percebeu que algo estava errado.
O batom estava sempre numa pequena prateleira debaixo do espelho.
Continuava lá.
Mas estava completamente destruído.
Em vez do vermelho intenso, estava coberto por manchas esbranquiçadas.
A tampa encontrava-se toda riscada.
Durante alguns segundos, Marina ficou apenas a olhar para ele, incapaz de aceitar o que via.
Depois viu Alla Petrovna.
A sogra limpava calmamente a porta de um armário com um pano.
Marina perguntou, lentamente:
— O que fizeste?
Alla Petrovna levantou os olhos.
— O quê?
— Ao meu batom.
A mulher encolheu os ombros.
— Ah, isso? Usei-o para tentar tirar uma mancha.
Marina olhou para ela, incrédula.
— Usaste o meu batom para limpar móveis?
— Ora, deixa-te disso — respondeu a sogra, indiferente. — Não faças disso um drama. Compras outro.
E acrescentou, com um sorriso frio:
— Com o teu próprio dinheiro.
Essas quatro palavras magoaram Marina muito mais do que o batom estragado.
Porque continham tudo.
Todo o desprezo com que era tratada havia meses.
A sensação de ser apenas uma pessoa tolerada naquela casa.
A certeza de que tudo aquilo de que gostava, tudo o que escolhia e tudo o que construía podia ser destruído a qualquer momento.
Nessa mesma noite contou tudo a Dmitri.
Ele estava deitado no sofá, exausto, ouvindo-a de olhos fechados.
— Marina, a minha mãe já é idosa — disse por fim. — Compra outro batom. Não vale a pena transformar isto num grande problema.
Marina ficou a olhar para ele durante muito tempo.
Depois perguntou, em voz baixa:
— É mesmo isso que pensas?
Dmitri não respondeu.
E foi nesse instante que Marina compreendeu, pela primeira vez, que o verdadeiro problema já não era apenas Alla Petrovna.
Era também o homem que, todas as vezes, permitia que ela enfrentasse a dor completamente sozinha.







