“Comemore o seu aniversário sozinho(a). Eu vou ajudar a minha ex!” — declarou o marido.

HISTÓRIAS INTERESSANTES

— Comemore seu aniversário sozinha. Enquanto isso, eu vou ajudar minha ex-esposa — disse Kirill calmamente, como se estivesse falando de algo absolutamente comum.

As palavras ficaram suspensas entre eles como uma pesada cortina invisível. O aconchegante café cheirava a café recém-moído e biscoitos de canela.

Do lado de fora, o crepúsculo de outono caía lentamente, enquanto gotas de chuva escorriam pela vidraça em finos fios. Para a maioria dos clientes, era apenas mais uma noite comum. Para Lena, porém, aquela noite estava se transformando em um pesadelo.

— Ela é a mãe dos meus filhos — acrescentou Kirill, sem tirar os olhos da xícara de café expresso. — Acontece que vou passar o dia do seu aniversário com ela. Não leve para o lado pessoal.

Por alguns segundos, Lena ficou olhando para ele em silêncio, incapaz de acreditar no que tinha acabado de ouvir. Sentia a raiva misturar-se com a decepção dentro dela. Nervosamente, pegou um palito de dentes sobre a mesa e o partiu ao meio.

— Não levar para o lado pessoal? — repetiu, incrédula. — Kirill, você ao menos ouve o que está dizendo?

O homem deu de ombros.

— Estou apenas explicando a situação.

— A situação? — Lena soltou uma risada amarga. — Estou com você há quase dois anos. Dois anos! E você continua se comportando como se estivesse mais ligado a ela do que a mim.

Kirill franziu a testa.

— Isso não é verdade.

— Sério? Porque parece exatamente o contrário. Quando ela liga, você larga tudo. Quando ela precisa de alguma coisa, corre imediatamente para ajudá-la.

Quando as crianças ficam doentes, você é o primeiro a aparecer na porta dela. E agora até o meu aniversário fica em segundo plano porque sua ex-esposa quer alguma coisa de você.

O homem suspirou profundamente.

— Lena, você está exagerando de novo.

— Exagerando? — perguntou ela em voz baixa. — Você faz ideia do quanto eu estava esperando por esse dia? Eu só queria passá-lo com você. Sem telefonemas da Zhanna.

Sem mensagens constantes. Sem precisar dividir você mais uma vez com uma mulher da qual, supostamente, você já se separou há muito tempo.

Por alguns instantes, permaneceram em silêncio. Kirill parecia cansado daquela conversa. Lena, por outro lado, sentia que estava chegando ao seu limite.

— Querida — disse ele finalmente —, já expliquei muitas vezes que a situação entre mim e Zhanna é complicada.

— Não. É você quem a torna complicada.

O homem não respondeu. Em vez disso, pegou o celular e desbloqueou a tela.

— Sabe de uma coisa? — disse após alguns segundos. — Vou transferir dinheiro para você comprar um presente.

Lena o encarou, atônita.

— O quê?

— Compre algo bonito para você. O que quiser.

Ele tocou algumas vezes na tela do smartphone. Logo depois, um ar de satisfação apareceu em seu rosto.

— Pronto. Quarenta mil rublos.

Lena sentiu o coração apertar de dor.

— Essa é a sua solução?

— Não entendi.

— Claro que não entendeu — respondeu amargamente. — Você acha que dinheiro resolve tudo.

— Eu só queria te agradar.

— Eu não queria dinheiro! — levantou a voz. — Eu queria você!

Algumas pessoas nas mesas ao redor viraram a cabeça para olhar. Lena imediatamente baixou o tom, mas as emoções continuavam fervendo dentro dela.

— Você nem sequer se deu ao trabalho de escolher um presente para mim — disse. — Nem pensou no que poderia me fazer feliz. Simplesmente transferiu dinheiro, como se estivesse pagando uma conta.

— Mas assim você pode comprar exatamente o que quiser.

— É justamente esse o problema! — Lena balançou a cabeça. — Um presente não é apenas um objeto. É um gesto. Uma prova de que alguém pensa em nós. De que nos conhece. De que se importa com a nossa felicidade.

Kirill a observou com surpresa.

— Você realmente está fazendo um drama por causa de uma coisa tão pequena?

— Pequena?

— Sim.

Lena permaneceu em silêncio por um momento. Cada vez mais percebia que o problema não era o aniversário, nem mesmo Zhanna. O problema era que, há muito tempo, Kirill já não enxergava seus sentimentos.

— Tenho a sensação de que você não se importa comigo — disse baixinho.

O homem recostou-se na cadeira.

— Isso não é verdade.

— Então prove.

— Lena, eu não preciso provar nada.

— Precisa, sim.

Kirill estreitou os olhos.

— Eu amo você.

— Palavras não significam nada quando não são acompanhadas por ações.

— Eu amo você — repetiu ele. — Mas cuidado e amor são duas coisas diferentes.

— Não, Kirill. Amor sem cuidado é apenas uma palavra vazia.

Por um instante, pareceu que ele iria responder, mas acabou desistindo.

Lena suspirou.

— Sinceramente, estou cansada de toda essa situação.

— Que situação?

— Da sua ex-esposa. Do fato de você ficar girando em torno dela como um guarda-costas fiel.

— Isso é injusto.

— Sério? Então me escute com atenção. Eu entendo que você veja seus filhos. Entendo que os leve para passear, faça as tarefas escolares com eles e participe da criação deles. Isso é maravilhoso. Eu realmente admiro você por isso.

— Então qual é o problema?

— Ela.

— Zhanna é a mãe dos meus filhos.

— E é justamente atrás disso que você esconde todo o resto.

Kirill cruzou os braços sobre o peito.

— Não estou entendendo.

— Você não precisa passar cada minuto livre com ela para ser um bom pai. Não precisa atender cada ligação no primeiro toque. Não precisa abandonar nossos planos toda vez que ela precisa de alguma coisa.

— Você está exagerando.

— Não. Pela primeira vez estou dizendo em voz alta o que sinto há muito tempo.

A impaciência apareceu no rosto do homem.

— Querida, nós já conversamos sobre isso muitas vezes.

— Sim. Mas você nunca me escuta.

Kirill soltou um longo suspiro.

— Meus filhos ainda são pequenos. É importante que tenham a mãe e o pai por perto.

— Concordo.

— Então por que está transformando isso em um problema?

— Porque sinto que, nessa história, todos têm o seu lugar, menos eu.

O homem a observou com mais atenção.

— O que quer dizer?

— Zhanna é a mãe das crianças. As crianças são a prioridade. Você é o pai delas. E eu? Quem sou eu?

Kirill não respondeu.

— Exatamente — disse Lena. — Nem eu mesma sei a resposta.

Pela primeira vez desde o início da conversa, ele pareceu abalado.

— Lena…

— Não, deixe-me terminar. Durante dois anos tentei ser paciente. Convenci a mim mesma de que você precisava de tempo. De que as crianças vinham em primeiro lugar. De que tudo acabaria se ajeitando. Mas hoje percebi algo muito importante.

— O quê?

Ela o encarou diretamente nos olhos.

— Quando alguém realmente quer estar com você, não procura desculpas. Procura uma maneira.

Kirill permaneceu em silêncio.

Lá fora, a chuva caía cada vez mais forte. No café, uma música suave tocava ao fundo, mas entre eles havia apenas um silêncio carregado de tensão.

Lena levantou-se da mesa e pegou a bolsa.

— Para onde você vai?

— Para casa.

— Assim, simplesmente?

— Sim.

— E a nossa conversa?

Um sorriso triste surgiu em seus lábios.

— Nossa conversa já dura dois anos, Kirill. Hoje eu apenas ouvi a resposta pela primeira vez.

Ela se virou e caminhou em direção à saída. Atrás de si, ouviu apenas o silêncio. Kirill não tentou impedi-la.

E foi justamente isso que mais a machucou.

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