Sob os passos, o rangido do soalho de madeira no corredor soou quase ensurdecedor. No amplo quarto de dormir, acendia-se apenas um candeeiro de parede, cuja luz lançava sombras inquietas no teto.
Na beira da cama desfeita, apertando apressadamente os botões de uma blusa amarrotada, estava Zhanna — a nova especialista de relações públicas que, naquela mesma manhã, na reunião, acenava obedientemente com a cabeça a cada palavra de Yana.
Artur nem sequer tentou cobrir-se. Estava de pé junto à janela, servindo calmamente algo forte para um copo de vidro grosso. O gelo tilintou contra o vidro, abafando por um instante o ruído noturno da cidade que entrava pela janela entreaberta.
— Por que estás aí parado? — disse Artur, virando-se com o copo na mão. O seu rosto, normalmente bem cuidado, agora parecia cansado e apagado. — Sem pausas teatrais, faz o que tens a fazer.
Zhanna ajustou nervosamente o colarinho e tentou passar por Yana, evitando o seu olhar. Yana afastou-se, dando-lhe passagem.
Dentro dela não havia lágrimas nem tremores. Apenas um cansaço profundo e pesado — como se aquele casamento já há muito estivesse sobre os seus ombros e ela finalmente o tivesse largado.
— Estou a fazer as minhas malas — disse Yana calmamente, olhando para a mancha de álcool derramado na mesa ao lado da cama.
Artur riu-se.
— Então vai para onde quiseres, se és tão orgulhosa — disse ele, num tom arrastado. — As portas estão abertas. Mas deixa as chaves do carro na mesa — o carro está registado em nome da empresa.
E lembra-te: vieste aqui com uma mala. Sem o meu pai, és apenas uma avaliadora comum de penhor. Vamos ver para quem és útil nesta cidade.
Yana não respondeu. Dirigiu-se ao escritório.
O seu sogro, Boris Grigorievich, dirigia a joalharia “Aurum Trust”. Aqui não se produziam joias em massa, mas sim peças únicas para um círculo restrito de clientes.
Artur era formalmente coproprietário, mas na realidade ocupava-se apenas de reuniões de representação e desperdício de orçamento.
Todo o trabalho verdadeiro recaía sobre Yana — especialista principal em pedras, negociadora e a única pessoa em quem os colecionadores confiavam.
Yana abriu o cofre e retirou o portátil de trabalho. Os acessos a leilões internacionais, contactos pessoais de joalheiros e dados de clientes VIP estavam guardados num disco encriptado.
No sistema geral da empresa havia apenas apresentações bonitas — aquilo que Artur gostava de mostrar em exposições.
Sentou-se, abriu o e-mail e escreveu rapidamente:
“Exmo. Ilia Sergeevich, por meio desta informo a cessação da colaboração com a joalharia ‘Aurum Trust’, por motivos pessoais…”
Enviou a mesma mensagem a todos os clientes. A última — ao sogro:

“Boris Grigorievich, estou a sair. Todos os documentos estão no gabinete de Artur.”
Alguns minutos depois já estava a arrumar as suas coisas. Ao passar pelo quarto, ouviu a voz de Artur ao telefone. Deixou as chaves na prateleira do espelho e saiu.
Três dias depois, na “Aurum Trust”, reinava o caos. Os clientes telefonavam um atrás do outro.
Vorontsov gritava ao telefone:
— O que é esta história de projetos alterados? Confiámos em vocês, em Yana, não no vosso filho!
Boris Grigorievich, confuso, tentava acalmá-lo, mas no momento seguinte começaram a ser canceladas todas as grandes encomendas. Em dois dias, a empresa perdeu a sua principal fonte de rendimento.
— Chamem o Artur — disse ele com dureza.
— Ele não está… disse que foi descansar — ouviu-se a voz da secretária.
O velho cerrou os punhos. Depois pegou nas chaves do carro.
Artur estava deitado no seu apartamento, a ver notícias no telemóvel, quando a porta se abriu sem tocar à campainha.
— Pai? — tentou sorrir.
Boris Grigorievich entrou e atirou uma pasta para cima da mesa.
— Sabes o que fizeste?
Artur encolheu ligeiramente os ombros.
— A Yana vai voltar, qual é o problema…
— Não percebes nada — disse o pai friamente. — Destruíste a empresa.
Despediu o filho, bloqueou todas as contas e expulsou-o do apartamento.
Um ano depois, Yana já tinha a sua própria agência. Os clientes tinham regressado. Até Vorontsov voltou a confiar-lhe uma nova encomenda.
Um dia, à entrada de um centro de negócios, ela encontrou Artur — agora com roupas simples e gastas, a trabalhar como estafeta.
— Estás bem — disse ele em voz baixa.
Yana olhou para ele e respondeu calmamente:
— Nunca tiveste experiência, Artur. Tinhas apenas o nome do teu pai.
E afastou-se.
No final, Yana comprou a antiga divisão de produção da empresa. Boris Grigorievich assinou os documentos, respirando com dificuldade.
— Ficaste com tudo…
— Só fiquei com o que era meu — respondeu Yana calmamente. — O seu filho destruiu o que o senhor tinha construído.
Quando ficou sozinha, olhou pela janela para a cidade.
Não sentia vingança. Apenas tranquilidade.







