“Cale-se imediatamente! O apartamento foi deixado para mim pela minha mãe — não para vocês brigarem por ele!” — disparou friamente a nora, e um silêncio sepulcral tomou conta da sala.

HISTÓRIAS INTERESSANTES

“Nem sequer sonhem! Minha mãe deixou-me aquele apartamento, não para vocês o dividirem entre si!” — disse a nora com uma calma gelada.

Dária levantou-se lentamente da cama, colocou o roupão sobre os ombros e dirigiu-se à casa de banho. Ao passar pela cozinha, ouviu a voz descontente da sogra:

— “Outra vez desarrumação! Não puseste o pão no cesto do pão, deixaste-o em cima da mesa. A Natália nunca faria uma coisa dessas…”

Dária cerrou os punhos, mas não disse nada.

Quatro anos.
Quatro longos anos naquele apartamento, naquela casa, onde todos os dias lhe lembravam que era apenas uma convidada tolerada e indesejada.

Lavou o rosto com água fria e voltou ao quarto para se vestir. Estava de folga e o seu único desejo era estar o mais longe possível de Valéria Romanovna e das constantes comparações com a “perfeita” Natália.

— “Dária!” — ecoou a voz autoritária da sogra. — “Quando vais ao supermercado? Não há leite, não há requeijão. Será que tenho de comprar tudo eu nesta idade?”

Dária fechou os olhos e contou até dez em silêncio.

— “Depois do almoço vou, Valéria Romanovna.”

— “Depois do almoço… A Natália já teria tratado de tudo logo de manhã. Ela sabe cuidar da família.”

Dária virou-se, para não dizer algo de que se pudesse arrepender. Pegou na mala, vestiu o casaco e saiu do apartamento sem dizer uma palavra.

Nesse dia, a sua paciência chegou ao fim.

À noite, quando Pavel chegou do trabalho, a mãe começou imediatamente a queixar-se:

— “Imagina, Pavluchka! De manhã pedi-lhe que trouxesse leite e ela simplesmente saiu! Ainda me respondeu!”

Pavel tirou os sapatos cansado e olhou para Dária, que estava junto ao fogão.

— “Mãe, não comeces…”

— “Como não começar? Vivo na minha própria casa e ninguém me respeita!”

Dária mexia os bifes na frigideira em silêncio, sentindo o peso da tensão nos ombros. Pavel passou por ela, bebeu um copo de água e foi para o quarto.

Nem a abraçou.
Nem perguntou como tinha sido o seu dia.

Era sempre a mesma coisa.

A mãe falava.
Pavel calava-se.

Dária já tinha percebido há muito tempo que o marido nunca a defenderia.

No dia seguinte, por volta do meio-dia, Natália chegou. Alta, elegante, com um casaco novo e uma mala cara que chamava ainda mais a atenção.

Valéria Romanovna recebeu-a de braços abertos:

— “Natássenka, querida! Estás tão linda! Esse casaco novo… Vês, Dária, é assim que se deve vestir, não com aqueles casacos velhos e largos.”

Dária estava à porta da cozinha com um pano na mão. Natália lançou-lhe um olhar indiferente e passou por ela sem dizer nada.

Nem sequer cumprimentou.

A noite inteira foi passada com Valéria Romanovna a elogiar a filha. Natália falava do novo emprego, da viagem a Sochi e dos seus planos futuros, enquanto a mãe a escutava com admiração.

Dária nem sequer foi chamada para a mesa.

Ela limpava a cozinha em silêncio, ouvindo através da parede como Natália era constantemente apresentada como exemplo.

Pavel também estava lá, ocasionalmente a comentar, como se tudo estivesse perfeitamente normal.

Naquela noite, Dária deitou-se cedo.

Já não tinha lugar naquela família.

Uma semana depois, o telefone tocou.

Dária estava sozinha em casa.

— “Senhora Dária Serguéievna? Estamos a ligar do hospital municipal. A sua mãe… faleceu esta manhã.”

O telefone quase lhe caiu da mão.

A sua mãe tinha morrido.

Nos últimos meses, ela estava doente. Dária, sempre que podia, visitava-a, mas o trabalho, as tensões em casa e as humilhações constantes tinham-na esgotado completamente.

E agora já era tarde demais.

Quando Pavel chegou a casa à noite, Dária estava sentada na cozinha, com uma chávena de chá frio na mão.

— “O que aconteceu?”

— “A minha mãe… morreu.”

Pavel abraçou-a de forma hesitante.

— “Sinto muito… as minhas sinceras condolências.”

E foi tudo.

Valéria Romanovna disse apenas:

— “Sim, todos nós um dia vamos morrer. Agora é preciso tratar dos documentos e do funeral.”

Sem compaixão.
Sem conforto.

Dária praticamente enterrou a mãe sozinha.

Uma semana depois, o notário telefonou. A mãe dela tinha deixado um testamento: o apartamento de dois quartos ficou para Dária.

Quando contou isso a Pavel, à noite, ele mal levantou os olhos do telemóvel.

— “Isso é uma boa notícia.”

— “Eu estava a pensar… talvez pudéssemos viver lá. Separados…”

— “Logo se vê” — murmurou Pavel, indiferente.

Mas Valéria Romanovna ouviu tudo.

No dia seguinte, durante o jantar, já perguntava pelo valor do apartamento.

No fim, disse claramente o que queria:

— “A Natália precisa de dinheiro para um novo projeto. Deviam vender o apartamento. A família ajuda-se.”

Dária ficou petrificada.

Vender a última memória da sua mãe… por causa da Natália?

Olhou para Pavel, esperando que finalmente a defendesse.

Mas ele apenas disse:

— “A mãe tem razão.”

Nesse momento, algo dentro de Dária partiu-se definitivamente.

Levantou-se lentamente da mesa e olhou primeiro para a sogra, depois para o marido.

A sua voz era fria e firme:

— “Esqueçam isso! A minha mãe deixou-me aquele apartamento, não para vocês o dividirem!”

O ar na cozinha ficou gelado.

Valéria Romanovna começou a gritar indignada. Pavel não tentou acalmar a mãe — apenas Dária.

Mas Dária já tinha decidido.

Nessa mesma noite, arrumou as suas coisas.

— “Se fores embora, acabou tudo!” — disse Pavel.

Dária olhou-o com tristeza.

— “Não. Isto acabou há quatro anos. Só eu é que não quis ver.”

E foi-se embora.

O apartamento da mãe recebeu-a em silêncio.

Finalmente, podia respirar.

Alguns meses depois, pediu o divórcio.

Pavel ligava-lhe vezes sem conta, mas Dária finalmente compreendeu a verdade:

Uma casa onde uma mulher é humilhada todos os dias nunca foi um verdadeiro lar.

Com o tempo, o apartamento encheu-se de novos objetos, novos hábitos e uma nova vida.

Comprou flores.
Colocou quadros nas paredes.

Tomava chá em paz, sem medo de críticas.

E um dia, ao passar em frente ao espelho, parou.

Do espelho olhava para ela uma mulher sorridente.

Um sorriso verdadeiro.
Talvez pela primeira vez em muitos anos.

Porque aquele apartamento não era apenas uma herança.

Era liberdade.
Era dignidade.

Era o começo de uma nova vida.

E essa vida, finalmente, era só dela.

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