— “Cala-te e não nos envergonhes no aniversário da minha mãe!” — sibilou ele com raiva, sem imaginar que, dentro de um minuto, Karina levantaria a taça de champanhe… e anunciaria o divórcio diante de todos.
Karina empurrou a porta do apartamento com o ombro, carregando duas sacolas pesadas de compras.
O dia tinha drenado completamente as suas forças: a reunião no trabalho se estendeu até a noite e, depois disso, ainda teve de ir ao supermercado, porque Valentin ligou dizendo que “o frigorífico estava novamente vazio”.
Entrou na cozinha… e encontrou o mesmo cenário doloroso de sempre.
A pia estava cheia de pratos sujos. Na mesa havia migalhas, pacotes vazios de batatas fritas e cafés meio bebidos. A família de Valentin tinha aparecido novamente sem avisar, esvaziado o frigorífico, comido tudo e deixado a desordem para trás.
Karina largou as sacolas em silêncio e começou a limpar mecanicamente. Ligou a máquina de lavar louça, limpou a mesa, deitou o lixo fora. Mas uma única ideia martelava na sua cabeça:amanhã vou ter de fazer compras outra vez… para todos eles.
Valentin estava na sala, preso ao telemóvel. Nem levantou os olhos quando ela passou por ele.
— A minha mãe esteve aqui hoje — disse ele, indiferente. — Quer uma televisão nova. A antiga já quase não funciona.
Karina secou lentamente as mãos no pano de cozinha.
— Quanto custa?
— Uns cinquenta mil rublos por uma boa. Ela já escolheu.
Cinquenta mil.Karina começou a fazer contas mentalmente. Trinta e dois mil do seu salário. Cerca de quarenta mil de bónus de Valentin. Setenta e dois mil no total. Se comprassem a televisão… quase nada sobraria.
— E a Zlata também quer ajuda — continuou Valentin. — Quer fazer um curso de design. Diz que vai ser a grande oportunidade dela.
Zlata tinha 26 anos e mudava de sonho a cada poucos meses: maquilhadora, fotógrafa, influencer… sempre algo novo, nunca trabalho de verdade.
— Quanto custa o curso? — perguntou Karina, cansada.
— Trinta mil por três meses.
Mais trinta mil.
Cinquenta mais trinta. Oitenta mil.
Karina sentiu algo dentro dela congelar.

E assim tinha sido durante meses. Anos.
Sempre Karina pagava. Sempre Karina resolvia. Sempre Karina suportava.
Enquanto isso, eles nunca tinham tido uma verdadeira viagem juntos.
Então chegou o aniversário de 60 anos da sogra.
O restaurante brilhava de luxo. Toalhas brancas, copos de cristal, flores e decoração cara por todo lado. Uljana Igorievna sentava-se como uma rainha, com um vestido novo e um colar de ouro.
Karina já sabia que a conta seria deles outra vez.
Valentin inclinou-se para ela e sussurrou com raiva:
— Sorri e não me envergonhes!
Karina olhou para ele calmamente.
— Não vou pagar um único rublo — disse, fria.
O rosto dele ficou vermelho de raiva. Agarrou-lhe o braço com força.
— Cala-te e não nos humilhes no aniversário da minha mãe!
Nesse momento, algo dentro de Karina partiu-se de vez.
Ela levantou-se.
Ergueu a taça de champanhe.
E bateu levemente com uma colher no vidro.
O salão silenciou.
— Queridos convidados… — começou, com uma voz calma e cortante. — Gostaria de felicitar a aniversariante de hoje. Uma mulher verdadeiramente especial. Extremamente talentosa em fazer os outros pagarem pela sua vida.
Silêncio absoluto.
— Em três anos, gastei mais de dois milhões e trezentos mil rublos com esta família. Televisões. Reparações. Cursos. Presentes. Tudo pago por mim… enquanto me chamavam egoísta por querer um futuro meu.
— Karina, pára imediatamente! — gritou Valentin.
Ela soltou a mão dele com calma.
— E mais uma coisa — acrescentou com um leve sorriso. — A partir de amanhã, Valentin e eu… vamos divorciar-nos.







