A porta fechou-se atrás de Laura com um leve clique, e no corredor ficou apenas o eco dos seus passos apressados. Descia as escadas com determinação, apertando as alças das malas, como se temesse que, se parasse por um segundo, voltaria atrás.
O telemóvel vibrou. Carlos.
“Estás mesmo a ir embora? Falas a sério?”
Laura olhou para o ecrã por alguns segundos, mas não respondeu. Já não tinha nada a explicar. Tudo já tinha sido dito, muitas vezes. Só que ele nunca quis ouvir.
Ao sair para a rua, o ar fresco da noite tocou-lhe o rosto e fez-lhe respirar fundo. O táxi chegou rapidamente. O motorista ajudou-a com as malas e ela sentou-se atrás, olhando pela janela.
A cidade era a mesma — luzes, gente, carros. Nada tinha parado. Só a sua vida acabara de mudar de direção.
O telemóvel voltou a vibrar. Carlos ligava. Uma vez. Depois outra. E outra. Laura não respondeu. Sabia perfeitamente como seria a conversa: primeiro os protestos, depois os pedidos de desculpa, depois promessas. E, no fim, tudo recomeçaria.
Quando o táxi parou em frente ao prédio da sua mãe, permaneceu imóvel por alguns segundos.
— Chegámos — disse o motorista.
— Sim… obrigado.
Pagou, desceu e olhou para as janelas familiares. Uma estava iluminada.
A sua mãe esperava por ela.
Subiu as escadas lentamente, desta vez sem pressa. Cada passo era mais leve que o anterior.
Bateu à porta.
Abriu-se quase de imediato.
— Laura…
Não foram necessárias mais palavras. A mãe abraçou-a com força, sem perguntas, sem repreensões.
— Vim… — sussurrou Laura.
— Eu sei.
Ficaram assim por alguns instantes, em silêncio. Um silêncio que curava mais do que qualquer explicação.
— Entra. Preparei chá.
Essas palavras simples fizeram mais do que qualquer conselho. Laura sentiu a tensão dos últimos meses começar a dissolver-se.
Mais tarde, estavam sentadas na cozinha, com as canecas quentes nas mãos.
— Queres contar-me? — perguntou a mãe docemente.
Laura balançou a cabeça.
— Já não há muito para contar… Acho que tudo estava claro há muito tempo. Só que não queria ver.
— É normal — respondeu a mãe —. Quando amas, tens esperança.
Laura sorriu tristemente.
— Ele nunca me escolheu. Sempre escolheu outra coisa. Ou outra pessoa.
A mãe permaneceu em silêncio por um momento.

— Então agora escolheste a ti própria.
O telemóvel vibrou novamente. Uma mensagem de Carlos.
Desta vez Laura abriu-a.
“Exagerei. Vamos falar. Não deveria ter dito todas aquelas coisas. Volta, vamos arrumar tudo. Prometo que será diferente.”
Laura leu a mensagem até ao fim. Depois novamente.
— É ele? — perguntou a mãe.
— Sim.
— E?
Laura pousou o telemóvel na mesa.
— Já não acredito no “será diferente”.
Tomou um gole de chá.
— Sabes qual é a coisa mais triste? Nem se trata dos presentes. Nem das discussões. Trata-se do facto de que, estando com ele, deixei de ser eu própria.
Na cozinha caiu o silêncio.
— E agora? — perguntou a mãe.
Laura ergueu o olhar.
— Agora quero voltar a ser eu mesma.
Naquela noite, pela primeira vez em muito tempo, Laura adormeceu sem angústia. Sem aquele nó no peito, sem lágrimas, sem tensão.
Na manhã seguinte, acordou com a luz a entrar pela janela. A calma parecia quase estranha.
Pegou no telemóvel e, sem hesitar, procurou informações sobre o divórcio.
Alguns dias depois estava em frente ao edifício onde tinha de entregar os documentos. As suas mãos não tremiam. Não tinha dúvidas.
Carlos já estava lá. Parecia cansado.
— Laura… podemos pelo menos falar? — disse.
Ela olhou para ele calmamente.
— Já falámos. Muitas vezes.
— Posso mudar.
— Talvez — respondeu ela docemente —. Mas não por mim.
Ele não soube o que dizer.
Laura entrou.
E enquanto assinava os documentos, sentiu algo inesperado — não tristeza, não raiva, mas alívio.
Como se, finalmente, pudesse respirar novamente.
Ao sair, o ar parecia mais leve.
E pela primeira vez em muito tempo — sorriu.







