«Todo o meu dinheiro é meu, e o seu é seu» — ele ria… Mas amanhã meu pai vai demiti-lo e me colocar no lugar dele!

HISTÓRIAS DE FAMÍLIA

— Sério, Anya, você é como uma garotinha. Meu dinheiro é meu. O seu é seu. Tudo justo — disse Dima, recostando-se no sofá e rindo alto, de coração.

Essa risada, que há um ano me parecia sincera e contagiante, agora me machucava os ouvidos como ferro barato. Ele me olhava de cima para baixo, e em seu olhar borbulhava uma autossatisfação pegajosa.

Um ano atrás havia admiração, agora havia uma compaixão condescendente pela “coitadinha” que ele permitiu morar ao lado dele.

— Eu só pensei que, já que a geladeira é compartilhada, faria sentido comprá-la juntos — respondi baixinho, olhando o padrão do tapete.

Não levantar os olhos. O mais importante — não levantar os olhos e não deixá-lo ver a raiva fria que lentamente subia do fundo da alma.

— Faz sentido quando cada um conta consigo mesmo. Eu te sustento? Não. Eu pago o aluguel e as contas? Sim. E agradeça por isso. A geladeira? Desculpe, isso é luxo. A velha ainda funciona.

Ele disse isso como se estivesse me jogando um osso roído.

A velha geladeira, que veio da avó dele, rugia à noite como um animal ferido e transformava os vegetais frescos em uma papa congelada.

Assenti silenciosamente.

“Um ano, filha. Apenas um ano” — ecoava a voz do meu pai na memória. — Não tenho nada contra seu Dima. Tenho contra sua cegueira. Vocês se conhecem há três meses.

Que ele prove que te ama, e não minhas possibilidades. Vivam do próprio dinheiro. Nem um centavo de mim. Vamos ver de que massa ele é feito.

Meu pai estava irritado com nosso casamento precipitado. Ele achava que Dima era um caçador de dotes. Para provar o contrário, concordei com este experimento.

Inclusive recuperei o sobrenome da minha mãe para que no trabalho não houvesse nenhuma associação. Para Dima, isso se tornou a história de como um pai rico “tirou a herança” da filha rebelde.

A massa era ruim. Nos primeiros seis meses, Dima fingiu ser nobre. Ele tinha certeza de que se aguentasse firme, o sogro severo trocaria raiva por misericórdia. Depois percebeu que não haveria dinheiro.

E a máscara começou a cair. Primeiro, as flores desapareceram. Depois ele “esquecia” a carteira no restaurante. E finalmente chegou-se ao orçamento separado: o dele — só dele, o meu — comum.

— Tudo bem, não fique chateada — aproximou-se e bagunçou meu cabelo descuidadamente. — Você vai ganhar — e comprar. Você é esperta. Está se esforçando.

Olhei para ele lentamente. Não havia sombra de dúvida em seus olhos sobre sua própria razão. Apenas a certeza de quem é o dono da situação, que ganha bem e teve “sorte” de se casar com uma mulher bonita, mas financeiramente inútil.

Ele não sabia que “me esforçar” significava meu trabalho na empresa do meu pai. Não sabia que o projeto-chave “Horizonte”, pelo qual ele receberia uma grande premiação, do início ao fim foi planejado e executado por mim.

E ele certamente não sabia que amanhã às dez horas da manhã ele seria chamado não para promoção.

— Sim, querido — forcei o sorriso mais submisso que pude. — Você tem razão. Claro que tem razão.

À noite, ele voltou para casa com os olhos brilhando. Largou sobre a mesa uma pasta de concessionária.

— Olha que belezura eu encontrei! — abriu com entusiasmo o folder. Da imagem, me encarava o perfil agressivo de um SUV caro.

— Vou financiar, claro. Mas com meu salário é tranquilo. A primeira parcela será com a premiação do projeto “Horizonte”. Logo será liberada.

Falava rápido, empolgado, sem perceber meu rosto imóvel.

“Horizonte”. Meu projeto. Minhas noites em claro, meus cálculos, minhas negociações. Dima era apenas o chefe nominal, que assinava meus relatórios e os apresentava bem nas reuniões.

— Vai pegar o carro? — minha voz saiu rouca, como debaixo d’água. — Mas… você disse que devemos economizar. Que nosso “colchão financeiro” ainda é fino demais.

Ele afastou-se do folder e me olhou com genuína perplexidade, como se eu tivesse dito uma besteira.

— Anya, você confunde tudo de novo. “Nosso” é sobre suas despesas. Eu não peço dinheiro a você, certo? Eu ganho — eu gasto. É motivação.

Motivação. Um homem deve crescer, buscar objetivos. E você me atrasa com seus problemas domésticos.

Ele usava essa técnica — “você me atrasa” — cada vez mais. Qualquer pedido meu ou tentativa de discutir planos conjuntos esbarrava nesse muro. Eu, com meus problemas, atrapalhava suas grandes conquistas.

— Estou tentando ser prática — fiz mais uma, última tentativa. — Que tal resolvermos primeiro a questão da moradia? Começamos a poupar para a hipoteca? Juntos.

Dima riu. A mesma risada do dia. Alta, confiante, humilhante.

— Hipoteca? Com seu salário? Anya, não me faça rir. Para poupar para hipoteca, precisa-se ganhar, não receber migalhas por empilhar papéis.

— Quando eu me tornar diretora comercial, aí conversaremos. Por enquanto — contente-se com seu marido. Seu marido logo estará dirigindo um carro incrível. Isso deve te deixar feliz.

Ele veio e me abraçou pelos ombros, cheirando a perfume caro e sucesso falso.

— A propósito do diretor — baixou a voz para um sussurro conspiratório. — Amanhã tenho reunião com o general. Parece que a situação mudou. O velho finalmente reconhecerá meus talentos.

Meu coração pulou uma batida. General. Meu pai.

Afastei-me para que não percebesse a tensão no meu corpo.

— Isso… isso é maravilhoso, querido! — forcei um sorriso entusiasmado.

— Claro que é! — ele brilhou. — Amanhã tudo se resolverá. Deseje-me sorte.

Foi dormir quase imediatamente, absolutamente feliz e confiante no futuro. E eu fiquei na cozinha, olhando pela janela escura.

O zumbido da velha geladeira parecia a contagem regressiva. Até a queda dele. E eu não tinha intenção de desejar sorte. Eu iria aproveitar o espetáculo.

A manhã estava impregnada de sua autossatisfação. Assobiava, escolhendo a gravata mais cara. Silenciosamente, servi-lhe café, desempenhando o papel da esposa dedicada.

— Preciso parecer um milhão — murmurou, inspecionando-se no espelho.

Meu olhar caiu sobre o vestido novo pendurado na porta do armário. Simples, de linho, pelo qual eu economizei três meses com meu “salário-migalha”.

Era minha pequena vitória, símbolo de que ainda existo separadamente dele.

Dima também percebeu. Aproximou-se e pegou o tecido com dois dedos, com repulsa.

— Que chique rústico é esse?

— É meu vestido novo — disse baixinho.

— Claro que é seu. Comprou o que podia. Anya, escute — virou-se para mim, rosto sério, quase paternal.

— Quando eu assumir o cargo, você terá que se adequar. Nada de roupas baratas. Você será esposa de um grande homem. É vergonhoso.

Ele falava, e eu olhava para o vestido. Para minha pequena, conquistada alegria, que ele acabara de esmagar na lama.

E então aconteceu algo que foi a gota d’água. Esticando o vinco de sua camisa perfeitamente branca, descuidadamente pendurou-a na mesma porta.

O ferro quente, que deixou por um segundo na tábua de passar, deslizou direto sobre meu vestido.

Houve um chiado. Uma mancha feia, marrom, queimando o tecido até o fundo.

Dima olhou para o buraco, depois para mim. Não havia arrependimento nem culpa em seus olhos. Apenas irritação.

— Viu? Se livrou dessa feiura sozinha — ele sorriu. — Tudo bem, não chore. Você vai comprar outro, quando eu permitir e der dinheiro.

Dentro de mim, algo quebrou. Silencioso, definitivo. Um ano de humilhações, farsas, esperanças. Tudo queimou junto com o vestido.

— Você tem razão — minha voz soou estranhamente calma e firme. — É hora de se livrar da feiura.

Ele não entendeu. Ouviu apenas submissão nas palavras, não a essência. Assentiu condescendentemente, pegou sua pasta, me beijou na bochecha e saiu. Para uma reunião que, pensava, o colocaria no topo.

Eu o observei. Então fui ao armário, peguei meu melhor terno executivo. O que meu pai me deu ao me formar na universidade. O que Dima nunca tinha visto.

Cheguei ao trabalho uma hora mais cedo. Passei pela minha mesa no espaço aberto, entre olhares surpresos dos colegas, e segui direto para o gabinete de canto com a placa: “Chefe do Departamento de Vendas. Sokolov D.A.”

A secretária levantou os olhos.

— Anna, para onde vai? Dmytriy Alekseevich ainda não chegou.

Sorri para ela.

— Eu sei. Vou para meu novo lugar. Pode me trazer café? E, por favor, troque a placa. Meu sobrenome é Orlova.

Exatamente às dez, a porta do gabinete se abriu. Dima entrou. Brilhando, confiante, com a pasta debaixo do braço. Congelou na entrada, vendo-me em sua cadeira. O sorriso lentamente desapareceu de seu rosto.

— Anya? O que você está fazendo aqui? — havia confusão em sua voz, mas ainda não pânico. — Vai brincar em outro lugar. Tenho reunião com o general agora.

— Eu sei — respondi calmamente, tomando um gole de café. — Eu também.

Nesse momento, meu pai entrou no gabinete. Dima se virou, e seu rosto se contorceu. Reconheceu o diretor geral, mas não entendia o que ele fazia ali comigo.

— Pavel Andreevich! Bom dia! E nós justamente… — começou a bajular.

— Bom dia, Dmytriy — meu pai passou por ele, aproximou-se de mim e colocou a mão em meu ombro. — Vejo que já conheceu sua nova chefe. Orlova Anna Pavlovna.

O rosto de Dima tornou-se uma máscara. Incredulidade, choque, pânico — tudo se misturava em seus olhos. Ele desviava o olhar de mim para meu pai e de volta.

— Orlova?.. Pavlovna?.. — sussurrou. — Que Orlova? Anya, que circo é esse?

— Não é circo, Dima. É meu verdadeiro sobrenome — levantei-me, sentindo uma calma fria se espalhar pelo corpo. — E Pavel Andreevich é meu pai.

As pupilas de Dima se dilataram. Ele cambaleou, como se tivesse sido atingido.

— Pai?.. Mas você… você disse…

— Eu disse que meu pai não queria lidar comigo. E era verdade. Ele não queria lidar com uma mulher que se permite ser humilhada. Ele esperou que eu entendesse tudo sozinha. Pois bem, eu entendi.

Ele me olhou, e finalmente começou a compreender: carro financiado, prêmio que ele havia apropriado, suas palavras sobre “trocos” e “roupas baratas”.

— Anya… querida… é um mal-entendido! — deu um passo em minha direção, estendendo as mãos. — Eu te amo! Tudo por você!

— Tudo para si mesmo, Dima — cortei. — Você mesmo estabeleceu as regras. Seu dinheiro é seu. O meu é meu.

Minha empresa. Meu escritório. Minha decisão. Você está demitido. Por artigo. Por apropriação sistemática de méritos alheios e resultados de trabalho intelectual. Todo o material do projeto “Horizonte” está comigo.

Ele congelou.

— Demitido?.. Você não pode…

— Posso. E quanto ao carro, não se preocupe. Você não receberá o prêmio. O crédito não será aprovado.

Meu pai observava a cena em silêncio, e em seus olhos vi aprovação.

— Mais uma coisa — acrescentei, olhando-o nos olhos. — Você pode levar suas coisas do apartamento até hoje à noite. Deixe as chaves com o porteiro. Meu advogado entrará em contato sobre o divórcio.

Ele me olhou como se eu fosse um monstro. Toda sua confiança fingida desapareceu, restou apenas um homem pequeno, ganancioso e apavorado.

— Mas… como… somos família!

— Não tivemos família com você, Dima. Você tinha um projeto conveniente. Mas ele está encerrado. Por falha em todos os indicadores.

Sentei-me na minha nova cadeira e peguei uma caneta.

— Agora, se terminou, saia. Tenho muito trabalho.

…À noite, depois que os sons de sua pressa se extinguiram, abri o laptop.

Entrei no site da loja de eletrodomésticos. Encontrei a maior e mais cara geladeira de aço inoxidável com dispensador de gelo e tela sensível ao toque. E cliquei em “Comprar”.

O pagamento foi instantâneo. Do meu cartão pessoal.

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