“Marsik, para onde você vai tão rápido, pequeno peludo travesso? Pára já!” – gritou Irina, soltando as sacolas de compras que segurava e quase se lançando para alcançar o gatinho.
Mas Marsik era mais rápido, e a ironia do destino quis que naquele exato momento a porta do prédio se abrisse. Antes que Irina pudesse fazer algo, o pequeno já tinha escapado por entre as portas.
Seu coração batia acelerado enquanto ela corria atrás dele. Conseguiu ver, por um instante, a sua cauda fofa desaparecer na saída, antes de sumir por completo.
“Marsik, volta aqui! Vem, neném, vem direitinho…” ela gritava desesperada, mas o gato, como sempre, não reagia.
Mas Irina não podia desistir. Talvez ele parasse, talvez se cansasse, talvez parasse por um segundo – e então ela poderia pegá-lo, levá-lo de volta para casa e dar-lhe a bronca que ele merecia.
E, de fato, no pátio ao lado, sob uma árvore, Marsik estava parado, como se estivesse decidindo se subiria ou não.
Sua cauda balançava nervosamente, mas Irina, com um movimento rápido, o agarrou e o apertou contra si.
Estava prestes a dar-lhe uma boa repreensão quando seu olhar se fixou em alguém – e todas as palavras ficaram presas em sua garganta.
Porque a pessoa que saiu da porta do prédio em frente não era ninguém menos que seu marido.
Mihail. Ele estava usando o moletom exatamente com o qual ele «viajou» para a sua «excursão de pesca». Em uma das mãos, ele segurava um saco de lixo.
Com passos tranquilos, ele caminhou até a lixeira, jogou o saco e, então, desapareceu da mesma forma tranquila, como se nada tivesse acontecido.
Irina ficou ali parada, congelada, com o gato nos braços, como se tivesse acordado de um pesadelo. Marsik, como se sentisse a tempestade interna de sua dona, se esfregou suavemente contra ela.
Em outra ocasião, talvez ele a tivesse acalmado… mas agora?
Agora, o único pensamento que ocupava sua mente era um.
Se Mihail fingiu que estava indo viajar, enquanto na verdade estava escondido em casa por duas semanas, só havia uma explicação para isso: ele fez por outra pessoa.
Por alguém mais. E certamente não era a primeira vez que ele «ia pescar». Irina não hesitou nem um segundo.
Ela sabia o que precisava fazer. Precisava voltar para casa, ver as coisas com clareza e bolar um plano. Um advogado? Sim, também seria necessário. Provas? Também.
A melhor prova? Pegá-lo no ato. Mas, antes disso, ela precisaria descobrir onde Mihail estava escondendo sua nova vida. A sorte estava ao seu lado. Na manhã seguinte, ela voltou para o pátio.
Ela não estava jogando um jogo de espionagem, não usava disfarces – não era ela quem deveria se envergonhar.

Quando chegou à entrada, estava bem a tempo: uma carteiro com a bolsa no ombro estava tentando abrir a porta com a chave.
Irina aproveitou o momento e, com um sorriso amigável, se aproximou. “Você poderia segurar a porta por um segundo?”
A mulher não hesitou em acenar com a cabeça. Talvez pela aparência impecável de Irina – quem suspeitaria de uma mulher tão elegante? A porta se abriu, e Irina entrou silenciosamente, como um fantasma.
Ela não sabia o que a esperava, mas sabia que deveria ser paciente.
Ela subiu até o quinto andar e se escondeu em um canto escuro. Não precisou esperar muito. Uma porta se abriu. Irina caminhou com cautela e deu uma olhada na escada.
Lá estava Mihail. Ele fechou a porta atrás de si com calma, como se nada tivesse acontecido. Ao lado dele, uma menina de uns dez anos pulava animada, com o celular na mão.
“Djadja Mis, apressa, senão vou me atrasar!” – a menina disse impacientemente.
“Djadja Mis?” – Irina entendeu imediatamente. Não bastava que seu marido tivesse uma vida dupla com outras mulheres – ele também estava fingindo ser pai para outra criança!
Naquele momento, ela poderia ter o pegado com as mãos na massa, mas não queria causar um escândalo na frente da menina. Não veio para chorar. Não veio para gritar.
Não. Ela seria mais digna do que isso. À noite, com maquiagem impecável, saltos altos e um vestido elegante, ela se colocou em frente à porta, com uma caixa de bolo nas mãos.
Afinal, não se deve aparecer em visita de mãos vazias.
Ela apertou a campainha. Um momento de silêncio, depois uma voz fina respondeu. “Quem é?”
Irina sorriu e respondeu. “Diga ao Mihail que Ira veio visitar. Trouxe um bolo – para um chá agradável.”
Ela não queria causar um escândalo. Só queria ver aquele homem, o que a traiu.
Então a porta se abriu. Mihail estava à sua frente. Mas ele não estava nem com culpa, nem com vergonha, apenas com surpresa.
“O que você está fazendo aqui?” – ele perguntou.
Irina riu suavemente. “Claro que não sabe! Ou achou que Marsik ia ser seu cúmplice?”
Mihail suspirou profundamente, apoiando-se na moldura da porta. “Irina… não tem nenhum caso.”
“Não?” – ela perguntou, levantando uma sobrancelha. “Então o que você está fazendo aqui?”
“Este é o apartamento da minha irmã.”
“Da sua irmã?”
“Sim. Descobri recentemente que tenho uma sobrinha e um sobrinho. Minha mãe me procurou – Sonja está no hospital e precisava de alguém para cuidar das crianças. Não podia deixá-las sozinhas.”
“E foi necessário mentir sobre isso?”
“Eu sei o que você pensa sobre essas situações familiares! Achei que você iria entender errado.”
Um silêncio pesado pairou entre eles. Irina colocou o bolo sobre a mesa e respirou fundo.
“Está bem, Mis. Mas a partir de agora – não haverá mais segredos. Entendido?” Mihail assentiu. E desde aquele dia, realmente não houve mais mentiras entre eles.







