Mulher com amnésia sobreviveu no lixão até o destino mudar sua vida!

HISTÓRIAS DE FAMÍLIA

Sob um cobertor velho e desgastado, na beira do barraco, Aysia se espreguiçou preguiçosamente enquanto tentava mover os membros ainda dormentes e com dificuldade abriu os olhos.

Ela não estava pronta para enfrentar o mundo além daquele abrigo.

Todo dia começava com os gritos estridentes e agudos das gaivotas e corvos, que sobrevoavam o imenso lixão local em busca de algo para comer. Aysia praticamente não sabia nada sobre seu passado.

Há alguns anos, depois de uma surra violenta, uma moradora de rua chamada Seda a encontrou. Seda, que também carregava feridas da vida, cuidou dela e, milagrosamente, a resgatou da morte.

Quando Aysia acordou, percebeu que sua memória havia desaparecido por completo.

— Você não é uma pessoa qualquer, e está em perigo — disse Seda, com seriedade. — Fique aqui por enquanto, nas sombras.

— Por quê? — perguntou Aysia, aceitando um pedaço de pão seco de centeio e um pouco de linguiça que Seda lhe ofereceu.

— Não se preocupe, não vem do lixão — tranquilizou-a Seda.

— Comprei na loja, mas entre o lixo também tem coisas boas. E quanto a sua pergunta… Pensa bem.

Eu te encontrei quase morta, mas você vestia roupas de mulher. Agora está com trapos. Alguém fez muito mal a você.

Naquele momento, Aysia aceitou o nome que Seda lhe deu: Aysia.

E assim ela passou a viver com outros indigentes nos arredores do lixão, liderados por um homem temido e sombrio chamado Oscuro, cujo nome parecia combinar perfeitamente com sua personalidade.

Aysia se levantou cuidadosamente do colchão de palha para não acordar Seda.

A casa dos indigentes, feita de papelões e coberta com lonas velhas, ainda exalava o mesmo odor desagradável. Mesmo depois de tantos anos, Aysia nunca se acostumou com aquele cheiro.

Ajustou sua roupa, deu uma sacudida para tirar a poeira e, decidida, começou a caminhar em direção ao bairro mais próximo.

Aproximadamente meia hora de caminhada acelerada a separava da cidade, onde as ruas substituíam o fedor do lixão.

Lá, ela se sentia mais segura. Procurava eventos para ir: concertos gratuitos, festas, feiras.

Não só porque conseguiria roubar facilmente uma carteira de um bolso alheio — um truque que Oscuro a ensinou, e no qual ela se tornou uma verdadeira especialista.

Mas também porque ela sabia organizar esses eventos, destacando os erros e reconhecendo as soluções que funcionavam.

Enquanto caminhava, Aysia parou em um quiosque perto do parque.

Fingiu ser uma simples compradora enquanto habilidosamente pegava um sorvete de um cesto e se acomodava em um banco para saboreá-lo.

Enquanto degustava seu doce favorito, seu olhar se fixou em um jornal jogado ali.

Sentou-se confortavelmente e começou a folheá-lo. Cada notícia poderia ser útil. Na última página, um anúncio a chamou a atenção, destacado em caixa alta: “Feira de Presentes de Outono”.

“Isso vale a pena!” pensou Aysia, e rapidamente voltou para o lixão para contar a novidade a Seda.

— Seda, onde você está? Sai daí, vou te mostrar uma coisa incrível! — gritou ela.

De entre os montes de lixo, sua amiga apareceu com uma sacola nas mãos. O rosto cansado de Seda mostrava curiosidade.

— O que é essa animação toda? Por que está saltitando feito uma criança? Me conta logo!

— Primeiro, faz uma dança para mim! — pediu Aysia, pulando ao redor.

— Está louca? Que dança? Não seja ridícula, me conte logo o que é!

— Não, Seda, dança! — insistiu Aysia, com um olhar exigente. — Isso mesmo!

— Tá bom, vou dançar, — resmungou Seda, começando a fazer movimentos como se estivesse imitando um peixe.

— Agora pode me contar! — pediu Aysia, quando Seda finalmente parou de dançar.

Aysia então tirou com orgulho o jornal e, com um sorriso largo, passou para Seda.

— Foi por isso que me fez dançar até agora? — reclamou Seda, folheando rapidamente o anúncio antes de devolver o jornal.

— E o que ganhamos com isso?

— O quê? Vai ter um monte de gente lá com grana! Com verdadeiros bilhetes e moedas, não aqueles plásticos!

— Mas vai ter segurança… — Seda resmungou, alertando para os riscos.

— Ah, — Aysia resmungou. — Primeira vez que você vai a uma feira? Nós somos mestres nisso! — bateu no peito com orgulho, levantando a cabeça.

Seda riu:

— Você tem talento até para convencer um morto. Vamos, comece a comer alguma coisa. Enquanto você estava por aí, também não fiquei parada. Fui ao mercado, olhei umas lojas. Vamos, come!

Para Aysia, Seda não era apenas uma companheira nas dificuldades. Ela se tornara uma mãe para ela, alguém que um dia a trouxe de volta à vida. Antes disso, Aysia era conhecida como Violet, uma cirurgiã.

Mas um dia, na mesa de operação, o filho de um criminoso local, Mednikov, morreu após um acidente terrível.

Ele controlava toda a cidade e era daqueles homens que sempre conseguiam o que queriam, independentemente do preço.

Apesar dos esforços médicos, o jovem, viciado, não resistiu. Mas o pai exigiu vingança e ameaçou destruir Violet.

Ele conseguiu que Violet fosse presa, e sua vida desmoronou.

Agora, Violet, ninguém mais a chamava assim, só Seda, vivia nas camadas mais baixas da sociedade, convivendo com os indigentes sob a liderança de Oscuro.

— Como é mesmo o sobrenome dele? — perguntou Aysia uma vez, quando Seda lhe contou sua história.

— Mednikov. Você lembra de alguma coisa?

— Não, — suspirou Aysia.

— Só de ouvir o nome, meu coração ficou apertado.

Finalmente, o dia da feira chegou. As meninas vestiram suas melhores roupas, compradas em lojas de segunda mão, se maquiaram e se dirigiram para o evento.

Em poucas horas, estavam como damas, prontas para enfrentar a multidão.

A feira estava cheia de sons, gritos e pessoas se movimentando. A gente se apertava em frente aos estandes, negociava, reclamava dos preços, mas ainda assim comprava.

Cédulas de dinheiro trocavam de mãos. Aysia e Seda se olharam: aquele era o momento perfeito.

Foi quando Aysia viu um homem em um estande de mel. Não sabia o porquê, mas não conseguia desviar o olhar dele. De seu bolso traseiro pendia uma carteira grossa.

“Deve ser ele”, pensou Aysia, e uma pequena satisfação surgiu em seu rosto enquanto rapidamente pegava a carteira.

Ela se esgueirou pela multidão e encontrou Seda, que estava “garantindo” a segurança. Como se estivessem conversando normalmente, as duas se dirigiram para a saída.

Quando finalmente saíram do parque, começaram a caminhar mais rápido de volta ao lixão.

Só quando chegaram ao seu abrigo é que puderam relaxar. Abriram a carteira e ficaram sem palavras.

Dentro, havia cédulas de grande valor, mas o que mais chamou sua atenção foi uma foto. Na imagem, estavam três pessoas: um homem, uma mulher e uma criança.

— É você! E essa roupa… é a mesma que você usava quando me encontrou há três anos, — sussurrou Seda, enquanto observava a foto.

— Então eu tenho uma família? — murmurou Aysia, com o coração batendo forte.

— Parece que sim. Mas, como você chegou até aqui? Talvez tenha sido seu marido quem te mandou? — perguntou Seda, com um olhar desconfiado.

— Não, não foi ele, — Aysia fez um gesto negativo com a mão.

— Você lembra de algo?

— Não, só sei que é real. Seda, não conta nada para ninguém, especialmente para Oscuro! Eu preciso encontrar esse homem, — disse Aysia, juntando as mãos.

Nesse momento, a conversa foi interrompida pela aparição de Oscuro, que entrou na cabana.

— Do que vocês estão falando? Por que não posso saber? — estendeu a mão enorme em direção à carteira. — Tudo é da comunidade. Todo mundo deve saber, ou já esqueceu.

Aysia apertou a carteira contra as costas:

— Eu não vou dar.

— Você… — rosnou Oscuro, levantando a mão para atacá-la.

Seda agarrou seu braço, protegendo Aysia, e sem dizer uma palavra, fez sinal para que Aysia fugisse. Aysia segurou a carteira e correu como nunca.

Já começava a escurecer quando ela deixou o parque. As barracas começavam a ser desmontadas. O homem cuja carteira ela roubou já não estava mais lá.

Vazia e desapontada, Aysia se sentou nos degraus de uma loja e começou a chorar silenciosamente. As marcas de maquiagem escorriam pelo seu rosto, mas ela não conseguia parar.

“É por isso que esse homem me parecia familiar. Não me importava com a carteira, mas com algo mais”, pensou Aysia, tentando segurar as lágrimas.

Não percebeu que uma criança se aproximava dela. Por alguns segundos, o garoto a observou com interesse genuíno, depois passou a mão na sua cabeça com carinho e gritou:

— Papai, olha! É aquela senhora da foto da sua carteira, a que está chorando! Vamos dar comida para ela!

Aysia engoliu o nó na garganta e tentou limpar as lágrimas. À sua frente estava o garoto, que segurava a mão do homem da foto. O rosto de Aysia lentamente tomou consciência do que estava acontecendo.

Os olhos do homem brilharam com diversos sentimentos: surpresa, alegria, dor pela perda do tempo, amor e alívio. De repente, ele a levantou como se fosse uma pena e começou a falar rapidamente:

— Galka, onde você esteve? Eu te procurei por toda parte. Todos diziam para eu desistir, mas eu não podia acreditar.

— Eu? Vivi no lixão. E hoje roubei sua carteira. Não me lembro de nada. Me encontraram lá, há uns anos, entre os indigentes.

— Eles me salvaram — sussurrou Aysia, sem poder acreditar no que estava acontecendo.

— Meu Deus, o que fizeram com você? Minha amada, meu amor… Não posso acreditar no que estou vendo, — disse Kirill, sem soltar Aysia.

O garoto, que observava a cena com os olhos arregalados, finalmente percebeu o que estava acontecendo.

— Mamãe, é você mesmo!

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