Naquela noite, Peter Andrejewitsch não conseguia descansar. O Ischias o atormentava com uma dor imensa que parecia paralisar todo o seu corpo.
Já havia tentado de tudo para aliviar o sofrimento, mas apenas um remédio parecia realmente ajudá-lo: a pomada milagrosa de sua vizinha Agafja Wassiljewna.
Graças a essa cura simples, ele conseguiu se mover um pouco. Quando a manhã finalmente chegou, a dor cedeu o suficiente para que ele conseguisse sair da cama.
Ficando de frente para a janela, olhou para o lado de fora, e não ficou surpreso com a cena que encontrou.
Seu corpo já estava acostumado com as indicações da ciática, que sempre parecia prever uma tempestade prestes a chegar.
O céu estava carregado e a chuva caía em abundância, lambendo as trilhas da floresta. O guarda-florestal afastou-se da janela e se dirigiu à tigela de água de Kamal, seu fiel companheiro.
Foi há um ano que Peter Andrejewitsch encontrou Kamal na floresta, à beira da morte. Durante uma luta feroz com um predador, o cachorro havia machucado severamente uma pata, quase perdendo sua mobilidade.
Mas Peter não o abandonou. Cuidou dele até que, pouco a pouco, Kamal se recuperasse, tornando-se não apenas um animal de estimação, mas um verdadeiro amigo.
O cachorro tinha uma inteligência extraordinária, conseguindo rastrear qualquer animal com precisão, e foi se tornando o único ser com quem Peter compartilhava sua vida solitária na floresta.
Há muitos anos, Peter vivia sozinho. Sua esposa, Maria Leonidowna, morrera de infarto há uma década, e sua filha Nadja já havia cortado os laços com a família.
Desde pequena, Nadja sonhava com a cidade, com uma vida melhor, e, assim que completou dezoito anos, partiu sem olhar para trás.
Casou-se com um homem rico, mas o casamento logo se desfez. Ao longo dos anos, Nadja se viu em relacionamentos fracassados, divórcios, gravidezes e abortos…
Era uma vida sem rumo, onde se agarrava desesperadamente a qualquer chance de mudança. Apesar da dificuldade financeira, Peter e Maria sempre tentaram ajudar, mas sem sucesso.

Maria chorava constantemente pela filha, e seu coração não aguentou a dor da ausência. Quando ela faleceu, Nadja nem apareceu no funeral, mesmo com um telegrama urgente enviado.
Não fez ligação, não enviou palavras. Isso feriu profundamente Peter, que, a partir de então, desistiu de tentar reconectar-se.
Restou-lhe apenas a solidão e o trabalho de guarda-florestal, que ainda lhe dava algum propósito.
Certa noite, alguém bateu à porta de sua casa. Surpreso, Peter abriu e encontrou três homens na sua frente.
Um deles era o policial local, Kirill Maximowitsch, acompanhado de um homem de meia-idade, visivelmente superior de algum órgão urbano, e atrás deles, um jovem tímido e cabisbaixo.
Peter Andrejewitsch logo percebeu que o rapaz era um ex-presidiário, mas não entendia o motivo de estarem ali. O guarda-florestal convidou-os a entrar e ofereceu chá com geleia de cranberry.
O policial aceitou com prazer, o superior urbano recusou educadamente e o jovem, claramente intimidado, não ousou pegar a xícara.
Foi o policial quem começou a explicação: queriam confiar-lhe Timur Aleksandrovich Kolesnikov, um ex-detento.
Seu crime havia sido uma bobagem juvenil, algo relativamente leve, mas ele havia sido libertado há um ano e ainda não mostrava sinais de recuperação.
O superior acrescentou que ele representava uma instituição de apoio social, trabalhando com pessoas que haviam perdido o rumo na vida, como órfãos e recém-libertados, oferecendo uma segunda chance.
A proposta era simples: Peter Andrejewitsch poderia ajudar Timur, assumindo sua responsabilidade, e em troca receberia uma recompensa adicional à sua aposentadoria.
Peter não hesitou em aceitar. Talvez, finalmente, sua solidão fosse quebrada, e Timur parecia ser uma pessoa honesta.
Porém, a convivência não foi tão fácil como ele imaginava. Timur era introspectivo e reservado, enquanto Peter não fazia perguntas desconfortáveis.
Com o tempo, o guarda-florestal foi integrando o jovem nas atividades cotidianas, e, aos poucos, Timur ganhou confiança. Kamal também aceitou o novo companheiro, de forma silenciosa, mas certa.
O cão, que tinha um instinto aguçado para distinguir boas pessoas, se aproximou do jovem e logo os dois formaram uma espécie de aliança.
Juntos, Kamal e Timur caminhavam pela floresta, de forma tranquila.
Uma manhã fria de inverno, enquanto realizavam sua patrulha habitual, Kamal começou a latir com entusiasmo. Os dois correram até o som, parando abruptamente ao verem o que estava acontecendo.
Uma jovem loba estava presa em uma armadilha. O estado do animal indicava que já lutava há dias pela sua sobrevivência.
Peter Andrejewitsch, entre dentes, resmungou o nome do caçador local, Dmitri Makarov.
Ele espalhava suas armadilhas pela floresta, causando grande sofrimento aos animais.
Apesar da fraqueza da loba, ela ainda poderia ser perigosa, então o guarda-florestal pediu a Timur que ficasse à distância e ordenou a Kamal que ficasse quieto.
Com cautela, Peter se aproximou da loba e começou a soltá-la, calmamente, da armadilha. A loba, já sem forças, mal conseguiu emitir um gemido de dor.
Peter a pegou com cuidado e a levou de volta para sua casa, onde ela receberia os cuidados necessários. Com a pomada de Agafja Wassiljewna, começaram o tratamento.
Chamaram a loba de Rama e se dedicaram à sua recuperação.
Rama se adaptou surpreendentemente bem ao novo ambiente. Com o tempo, passou a confiar no homem e até aceitava comida diretamente das mãos dele.
Ela viveu com eles até o fim do inverno, quando, um dia, começou a mostrar sinais de inquietação. Uivos e movimentos nervosos indicavam que era hora de deixá-la ir.
Embora Timur tenha sugerido que talvez fosse cedo demais, Peter sabia que era o momento certo. Era época de acasalamento, e a agitação da loba era natural.
Duas semanas depois, a aldeia foi abalada por uma tragédia. Veronika, a filha de Makarov, desapareceu.
Ela havia saído da aldeia há três anos, mudado-se para a cidade e se casado com um homem rico, mas recentemente retornou grávida, após ser expulsa por seu noivo, que não aceitava a gravidez.
Desesperada, Veronika correu para a casa do pai, mas Makarov a rejeitou com violência, expulsando-a com uma pá. A jovem fugiu para a floresta, e a busca por ela foi intensa.
O frio aumentava, e a busca se intensificava. Peter Andrejewitsch, Timur e Kamal estavam entre os que procuravam.
Finalmente, no escurecer do dia, algo inesperado aconteceu: Rama apareceu diante deles.
Ela olhou fixamente para Peter e, de repente, disparou para frente, parando algumas vezes, como se os chamasse para segui-la.
Peter, com um lampejo de entendimento, gritou para Timur: “Siga-a!” E os três correram atrás da loba, que os levou até o rio. Lá, eles ouviram o grito angustiado de Veronika, que estava lutando contra o gelo.
Timur agiu rapidamente, pegando um tronco e, com cautela, avançando sobre o gelo fino.
Ele estendeu o tronco para Veronika, que agarrou com força, e com muito esforço, Timur conseguiu puxá-la para um lugar mais seguro.
Ele a envolveu com sua jaqueta, e com a ajuda de Peter, conseguiu levá-la até a ambulância.
Veronika foi levada para o hospital, e Makarov foi convocado para um interrogatório. Peter Andrejewitsch, que assistira a tudo, disse pouco. Ele sabia que tinha feito o suficiente.
No entanto, ao ver Kamal ao seu lado e Rama na floresta, ele sentiu que, de alguma forma, a natureza tinha guiado todos até aquele momento, sem que eles soubessem disso antes.







