A porta se fechou com estrondo.
Desde cedo, Natalja sabia que o dia não seria bom.
Sua filha de 19 anos, Lusia, havia trazido um gatinho, Muska, para casa. O animalzinho, embora fofo, já tinha feito um estrago no tapete do banheiro, e aquilo a deixou irritada.
Natalja não culpava a filha; Lusia sempre tentava fazer as coisas da melhor forma possível.
Muska se comportava bem na maior parte do tempo, a caixa de areia estava sempre limpa, ele era levado para passeios diários. No entanto, aquele acidente de hoje havia sido a gota d’água.
Lusia estava trancada no quarto estudando chinês quando sua mãe a chamou. Com a cara de quem estava tentando se concentrar, Lusia apareceu, tirando os fones de ouvido.
“Mãe, por favor, limpa isso! Não aguento mais!” implorou.
“Não tenho tempo, estou atrasada para o trabalho!” respondeu Natalja, apressada.
“Mas mãe, eu também estou sem tempo! Tenho provas!” Lusia gritou, os olhos arregalados.
Natalja suspirou, mas a filha a abraçou e, com um sorriso forçado, completou:
“Mãe, você é a melhor, a mais linda. Por favor, só mais uma vez!”
Natalja não conseguiu evitar um sorriso. “Você é uma especialista em elogios, Lusia! Tudo bem, mas essa é a última vez.”
“Mãe, e o Igor…” Lusia hesitou.
“Esse Igor de novo?! Pelo amor de Deus, Lusia! Aprenda a se cuidar sozinha! Não quero ouvir mais nada sobre ele! Arruma um emprego! Vai trabalhar!” exclamou Natalja, frustrada.
Mas Lusia não desistiu. “Mãe, ele queria…”
“Basta! Eu não quero saber!”
Revirando os olhos, Lusia voltou para seu quarto, colocando os fones de ouvido novamente e fazendo um sinal de despedida com a mão.
Natalja correu até a parada de ônibus. Se perdesse o mini-bus, mais uma bronca do chefe, Nikolaj, viria.
Nikolaj não era mal, mas sempre achava algo para criticar. Os colegas de trabalho até brincavam, dizendo que ele tinha uma queda por ela, mas Natalja nunca acreditou nisso.
Sempre respondia: “Ele me odeia, qualquer um pode ver!”
Ela não entendia porque Nikolaj a criticava tanto, mas não tinha escolha. Pegou o mini-bus e, para sua surpresa, encontrou um lugar vazio ao lado da janela.
Quando desceu, tropeçou na borda da calçada e caiu. Perdeu a consciência por alguns segundos, levantando-se com dificuldade, mancando, tentando disfarçar.
Suas meias estavam rasgadas, a saia suja e a manga da blusa rasgada.
Foi então que ouviu uma voz familiar.
“Oi, Natalja. O que aconteceu? Já tão cedo na balada?”
Era Nikolaj Sergejewicz. A sensação de calor subiu pela cabeça dela.
Até quando isso iria durar? Seu marido tinha ido embora quando Lusia tinha três anos. Desde então, não tinha mais vida pessoal. Agora, sua filha, aos 19 anos, pensava em se casar.
O trabalho já não a satisfazia. Antes, havia pausas, mas com a chegada de Nikolaj à supervisão, até isso tinha desaparecido.
Além disso, ela estava com a perna machucada e as meias rasgadas.
E, para piorar tudo, viu aquele homem estranho, o temido “Ermitão”, como suas amigas chamavam.
Ele viajava uma vez por mês para a cidade vizinha, sempre sério e calado.
Seu olhar, sempre penetrante, causava arrepios. Os outros passageiros evitavam a presença dele e, quando ele estava no vagão, logo pediam para se transferir para outro.
Natalja sabia que o “Ermitão” estaria lá naquele dia, e o clima já não ajudava.
Ela respirou fundo, olhando para Nikolaj com desdém. “E você, Nikolaj Sergejewicz, não tem nada melhor para fazer do que inventar histórias? Se você não tem vida, não se meta na minha.
Meu trabalho é esse aqui, como você pode ver, e minha aparência fora de serviço não é da sua conta.”
Os olhos de Nikolaj se arregalaram, mas ele se calou e entrou no vagão, tentando não mostrar que se sentia desconfortável.
“Talvez me mande embora”, pensou Natalja. “Ah, bem, não é que eu tenha muito trabalho aqui, e mais trens. Quem sabe eu vou para a fábrica, pelo menos lá ficaria mais em casa.”

O trem partiu e, por um momento, Natalja se acalmou. Sua raiva diminuiu.
Os passageiros não tinham nada a ver com sua vida pessoal. Ela estava quase começando a revisar os vagões quando avistou o “Ermitão” no fundo do vagão.
“Bom dia”, disse Natalja, mas ele apenas levantou os olhos brevemente, entregou seu bilhete e passou por ela em silêncio.
“Bom, como sempre”, pensou ela, e suspirou. Fechou os olhos, começando a contar até dez para relaxar. O vagão estava quase vazio, então ela se preparou para fazer a revisão.
Quando chegou ao compartimento do “Ermitão”, abriu a porta com delicadeza.
“Tudo bem aí? Precisa de algo? Talvez um pouco de chá?” perguntou ela.
Para sua surpresa, o homem levantou a cabeça e a olhou. Seus olhos claros estavam atentos, e sua voz, baixa e calma, respondeu:
“Sim, se possível, chá.”
Natalja ficou sem palavras. O homem, sempre tão silencioso e impassível, de repente falava. Ela fechou a porta, atônita.
Quando trouxe o chá, o “Ermitão” a olhou novamente, desta vez com um leve sorriso.
“Obrigado.”
A jovem não conseguiu esconder sua surpresa. O homem estranho, aparentemente tão distante, estava… sendo gentil?
Antes que ela pudesse pensar mais sobre isso, viu algo peculiar: uma bolsa deixada em um dos compartimentos vazios.
O que seria aquilo? Quando se aproximou, empurrou a bolsa com o pé. De repente, ouviu uma voz fraca:
“Por favor, não me jogue fora. Só quero continuar viajando.”
A surpresa de Natalja foi instantânea. A “bolsa” não era uma bolsa, mas uma jovem mulher, visivelmente grávida.
Ela imediatamente começou a chorar, em um pranto abafado.
“Por favor, não me jogue fora. Preciso fugir, não tenho para onde ir. Fugi do meu noivo e da mãe dele. Eles queriam que eu entregasse o bebê, mas eu não vou.”
Natalja soubera, naquele instante, que deveria ajudá-la.
“Calma, calma. Venha comigo. Vou te fazer um chá e você me conta tudo depois.”
A jovem parou de chorar, mas os olhos dela estavam cheios de medo.
“Ninguém pode saber que estou aqui”, murmurou, com a voz trêmula. “Fui obrigada a fugir, senão iam tomar o meu filho.”
Natalja a acalmou. “Por enquanto, você vai ficar aqui. Sem perguntas. Eu cuido disso.”
A mulher, chamada Kira, aceitou e foi com ela até o compartimento onde estava o “Ermitão”.
“Essa é sua vizinha”, disse Natalja, apontando para Kira.
O homem olhou-a apenas por um momento, franziu a testa ao perceber a gravidez e voltou a olhar pela janela, sem dizer nada.
Natalja suspirou. O que mais poderia acontecer naquele dia?
Quando o trem seguiu sua viagem, ela se sentou, sentindo-se exausta. O que seria daquela história? Estava cansada de tanto drama, mas, ao mesmo tempo, uma sensação estranha de que algo mudara dentro dela começava a crescer.
E então, antes que ela pudesse descansar, alguém bateu na porta.
“Sim?”, respondeu.
Era Nikolaj.
“Posso entrar?”
Natalja se estremeceu por dentro. Seria o fim de seu emprego?
“Natalja…”
“Antonovna”, ela corrigiu.
“Natalja Antonovna, eu… eu quero pedir desculpas. Eu estava errado. Você estava certa em me repreender.”
Natalja ficou surpresa. “Bem… tudo bem. Aceito suas desculpas. Acho que também poderia ter sido mais calma.”
Ele sorriu, timidamente. “Eu… eu realmente precisava disso. Foi como um choque para eu voltar a pensar direito.”
Ela sorriu também. “Está tudo bem. Agora, podemos tomar um café. Eu tenho uns sachês ótimos.”
E, com um riso leve, o clima entre eles se quebrou. Eles se sentaram e conversaram como velhos amigos, sem pressões, sem cobranças.
De repente, Natalja se pegou pensando: “Talvez eu tenha subestimado Nikolaj.”
E, mais importante, talvez ela tivesse sido dura demais com ele.
O trem seguiu seu caminho.







