O mundo de Shirley desabou no instante em que viu Brody, seu marido, numa pose demasiadamente íntima com Lila, sua secretária, no escritório que antes era apenas deles dois. Shirley congelou; seus dedos afrouxaram,
e as colheres que segurava caíram ao chão com um estrondo. Mas Brody e Lila não a notaram — ou fingiram não notar. O estômago de Shirley se revirou, e as lágrimas ardiam como fogo em seus olhos. Mas ela não choraria. Não ali. Não diante deles.
— Brody! — Sua voz ecoou pelo ambiente, firme e cortante como uma lâmina. Brody virou-se devagar, estampando uma falsa surpresa no rosto. — Shirley? O que você está fazendo aqui? — O que eu estou fazendo aqui? — Shirley cruzou os braços,
seus olhos fixos na mão dele, ainda repousada na coxa de Lila. — Essa é a pergunta que eu deveria fazer a você. Com calma provocativa, Brody retirou a mão, como se desafiasse Shirley a continuar. — Estamos discutindo trabalho.
Não transforme isso em um drama. — Trabalho? — Shirley soltou uma risada amarga. — É assim que se discute trabalho? Com a mão sob a saia da sua funcionária? E na minha frente? — Chega, Shirley — Brody sibilou,
sua expressão endurecendo em uma mistura de raiva e desprezo. — Você está se expondo ao ridículo. — Eu? Ridícula? — Shirley deu um passo à frente, a voz tremendo, mas cheia de determinação. — Nós vamos conversar. Agora. A sós.
Brody cruzou os braços, o olhar frio e calculista. — Você não manda em mim. E já que estamos sendo francos, era bom você saber: estou entrando com o pedido de divórcio hoje mesmo. E, a propósito, a casa fica comigo.
Shirley sentiu o chão desaparecer sob seus pés. — A casa? A casa dos meus pais? Você não teria coragem! Um sorriso cruel brotou nos lábios dele. — Esqueceu que você se casou com um advogado? Lila vai se mudar para lá, e vamos aproveitar cada canto daquela casa. Que tal?

O ar fugiu dos pulmões de Shirley. Antes que ela pudesse reagir, Brody retirou a aliança do dedo, pressionou-a contra o bolo que ela havia trazido e zombou: — Talvez você possa vender isso para comprar uma caminha de cachorro. — Então, segurando a mão de Lila, saiu rindo.
Shirley permaneceu parada, o coração em estilhaços, enquanto os olhares dos colegas a queimavam com pena silenciosa. Ela não desmoronaria ali. Não daria esse gosto a ninguém. Ergueu a cabeça e saiu, mas por dentro um furacão a devastava.
Sozinha num quarto barato de hotel, Shirley finalmente cedeu. As lágrimas vieram em torrente, e ela socava o travesseiro, um grito de desespero escapando de seus lábios. — Como ele pôde fazer isso comigo? Depois de tudo o que passamos juntos?
Um som de batidas à porta a fez estremecer. Ela limpou o rosto apressadamente antes de abrir. Diante dela, estava um homem que nunca havia visto antes. — Desculpe incomodar — começou ele, hesitante. — Achei que tivesse ouvido alguém pedindo ajuda.
Shirley o encarou, atônita, antes de responder com irritação: — Bem, ouviu errado. A menos que saiba como salvar minha casa do meu futuro ex-marido. Caso contrário, dê o fora. O homem ergueu as sobrancelhas, avaliando-a rapidamente.
— Agora entendo por que ele está te deixando — disse ele, com a voz calma, mas cruel como uma faca. — O quê? — Shirley avançou um passo, incrédula. — Como se atreve? Sem mais explicações, o homem virou-se para ir embora.
Shirley não deixou barato. Seguiu-o até o quarto, segurou a porta antes que ele a fechasse e exigiu: — Não vai sair assim! O que quis dizer com isso? Ele hesitou, visivelmente arrependido. — Esqueça — disse, a voz baixa.
— Esquecer? Eu não vou! Já basta de homens tentando me diminuir. Você não tem ideia de quem eu sou! Por um momento, o homem a encarou, e algo como arrependimento passou por seus olhos. — Você tem razão. Não merece isso.
Antes que Shirley pudesse dizer algo, ele fechou a porta. Na manhã seguinte, Shirley foi trabalhar esperando nunca mais cruzar com aquele homem. Mas, ao ser apresentada ao novo chefe, o sangue gelou em suas veias. Era ele. O estranho do hotel.







