Nunca amei minha esposa e já disse isso várias vezes. Não é culpa dela-nós nos divertimos muito juntos.

HISTÓRIAS DE FAMÍLIA

Nunca amei minha esposa. Já disse isso a ela várias vezes. Não era culpa dela. Nossa vida juntos era tranquila, harmoniosa. Ela sempre foi gentil, paciente e se dedicava a mim de um jeito que poucos seriam capazes. Nunca reclamava, nunca criava problemas. Mas, ainda assim, faltava algo: o amor.

Todas as manhãs, eu acordava com o mesmo pensamento: Preciso ir embora. Sonhava em encontrar uma mulher que pudesse amar de verdade, com toda a minha alma. No entanto, jamais imaginei que o destino viraria minha vida de cabeça para baixo tão bruscamente.

Viver com Irina era conveniente. Ela não era apenas uma esposa exemplar, que cuidava da casa e de todas as obrigações, mas também incrivelmente bonita. Meus amigos a admiravam. Alguns até a invejavam. Não conseguiam entender como eu tinha tido tanta sorte. E, para ser sincero, nem eu conseguia.

O que eu fiz para merecer o amor dela? Eu, um homem comum, sem nada de especial… e ela, me amando tão profundamente? Não fazia sentido para mim. A devoção dela me atormentava. Doía imaginar que, se eu a deixasse, ela encontraria outro alguém. Alguém melhor do que eu. Mais rico, mais bem-sucedido, mais carismático.

Ainda assim, quando pensava em Irina nos braços de outro, eu enlouquecia. Ela era minha. Mesmo sem amá-la, a ideia de perdê-la era insuportável. Esse sentimento de posse me dominava. Mas seria possível passar a vida inteira ao lado de alguém que não se ama? Achei que sim, que conseguiria suportar. Estava errado. Naquela noite, tomei uma decisão.

Amanhã, vou contar a verdade. Na manhã seguinte, durante o café da manhã, reuni toda a coragem que tinha: – Irina, sente-se. Precisamos conversar, disse com seriedade. – Claro, meu amor. Estou ouvindo, respondeu ela com aquele sorriso doce. – Quero que imagine algo… que nos separamos. Eu vou embora. Não moramos mais juntos.

Irina riu suavemente, achando que eu estava brincando: – Que ideia é essa? Está tentando me pregar uma peça? – Não, é sério. Me escute até o fim, insisti com firmeza. O rosto dela ficou sério. – Tudo bem, pode continuar, disse ela. – Então… Você encontraria outro homem se nos separássemos? perguntei, com um nó na garganta. Ela me olhou, confusa.

– Dimitri, o que está acontecendo? Por que quer ir embora? – Porque não te amo. Nunca te amei, confessei. O silêncio dela foi mais ensurdecedor do que qualquer palavra. Seu olhar ficou opaco. – Você não pode estar falando sério… Não acredito nisso, sussurrou ela. – É a verdade. Quero ir embora, mas não consigo.

Só de pensar que você estaria com outro homem, fico louco, desabafei. Irina ficou pensativa por alguns instantes. Depois, falou com calma: – Você não precisa se preocupar. Não encontrarei ninguém melhor do que você. Se quer ir, vá. Não ficarei com mais ninguém. – Promete? perguntei, desesperado. – Prometo. Senti um misto de alívio e vazio.

– E para onde vou? Não tenho para onde ir, admiti por fim. – Não tem? Pensei que já tivesse feito planos, disse ela, quase com ironia. – Não. Passamos a vida toda juntos. Parece que teremos que continuar próximos, falei, desanimado. – Não se preocupe, respondeu. – Depois do divórcio, podemos dividir o apartamento. As palavras dela me surpreenderam.

– Sério? Não esperava isso de você. Por que está fazendo isso? – Porque te amo. Quando se ama alguém, não se pode obrigá-lo a ficar, respondeu ela. Alguns meses depois, nos divorciamos. Mas, em pouco tempo, descobri a verdade. Irina não cumpriu sua promessa. Encontrou outro homem.

E o apartamento – aquele que havia herdado da avó – ela nunca teve a intenção de dividir comigo. Fiquei sozinho. Sem nada. Mais sozinho do que nunca. Como confiar nas mulheres novamente? Não faço ideia.

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